Crianças tentam recuperar itens de TVs para vendê-los, nas Filipinas. Metais precisosos, como ouro e prata, integram vários aparelhos
Brasília – Um telefone celular ultrapassado, aquele televisor analógico, um computador que já não funciona como antes. Jogar equipamentos eletrônicos no lixo virou uma rotina perigosa, de acordo com levantamento feito por uma iniciativa liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com a análise, cada ser humano descarta, em média, sete quilos de resíduos eletrônicos todos os anos. Em todo o mundo, o total é de 48,9 milhões de toneladas de dispositivos elétricos jogados fora, o suficiente para cobrir três quartos da linha do Equador com caminhões carregados de 40 toneladas de lixo. E não deve levar muito tempo para essa formação dar a volta ao mundo. De acordo com a estimativa da organização, a montanha de rejeitos deve crescer 33% até 2017, quando espera-se que o planeta atinja a marca de 65,4 milhões de toneladas de aparelhos descartados em um único ano.
O grupo internacional StEP (sigla em inglês para Resolvendo o Problema do Lixo Eletrônico) criou um mapa interativo virtual, onde é possível acessar estimativas do descarte de eletrônicos de 184 países. Os campeões no ranking são os Estados Unidos e a China, com 9,4 milhões e 7,3 milhões de toneladas, respectivamente. Os dois países são responsáveis, sozinhos, pela produção de cerca de um terço de todo o resíduo tecnológico descartado no mundo.
Pode-se dizer, no entanto, que o chinês ainda produz muito menos lixo desse tipo do que o norte-americano, pois o assustador volume descartado no país asiático pode ser atribuído à imensa população do país. Nos EUA, a média anual de resíduos é de 29,8 quilos por pessoa, enquanto na China esse índice é de apenas 5,4 quilos. Outros países que partilham o vício ianque por equipamentos novos são o Canadá (média de 24,7 quilos por pessoa a cada ano), a Suíça (27 quilos) e a Alemanha (23,2 quilos).
Os números, explica um representante da iniciativa, são construídos com base na expectativa de uso de produtos consumidos por cada país. Quanto mais itens comprados, mais se espera que vão parar no lixo futuramente. “Portanto, também pode haver alguns produtos que são reutilizados em uma segunda vida, e que não estejam virando material para reciclagem diretamente”, pondera Ruediger Kuehr, representante da StEP e diretor do Instituto para a Sustentabilidade e a Paz na Universidade das Nações Unidas.
Tóxico Nos Estados Unidos, a maior parte do lixo high-tech é composta de telefones celulares: calcula-se que, somente em 2012, o país jogou fora 120 milhões de aparelhos. Em termos de volume, no entanto, os maiores culpados pelo crescimento da pilha norte-americana de resíduos eram os monitores de computadores e os televisores. Estima-se que dois terços de todos os itens rejeitados tenham sido coletados para reuso ou reciclagem, enquanto 8,5% dos eletrônicos descartados tenham sido exportados.
O descarte de peças se tornou uma bola de neve tóxica que cresce a velocidade preocupante em países de alta renda e é sistematicamente jogada em nações em desenvolvimento. Países que têm baixos índices de produção de resíduos acabam envolvidos nesse problema global ao receber partes eletrônicas e rejeitos compostos de materiais perigosos como chumbo, mercúrio, cádmio e arsênio. A prática, que é rejeitada pelo Brasil, sobrevive graças a métodos informais, como o disfarce do lixo como um material usado.
“No passado, certamente havia mais exemplos de recicladores que exportavam resíduos a quem pagasse mais, e assim faziam outros países lidar com seus resíduos em vez de resolver o próprio problema”, explica Jason Linnel, diretor do Centro Nacional de Reciclagem de Eletrônicos dos Estados Unidos (NCER). “Esse é um problema, mas há cada vez mais leis e programas para evitar o despejo”, ressalta Linnel. De acordo com o especialista, o país não tem políticas públicas voltadas para a reciclagem de eletrônicos. Somente metade dos estados norte-americanos adotou programas de reaproveitamento, além de algumas iniciativas de empresas privadas que se encarregam da tarefa de forma independente.
Brasil discute legislação sobre o tema
O brasileiro está pouco acima da média mundial, descartando sete quilos de lixo eletrônico anualmente. Mas o 1,3 milhão de toneladas anuais gerados no país já são o suficiente para colocá-lo na sétima posição entre as nações que mais contribuem para a descontrolada pilha de eletrônicos jogados fora.
O lixo eletrônico está entre as cinco prioridades da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010. De acordo com o texto, o consumidor teria a opção de recorrer à logística reversa e retornar os objetos usados para a loja onde os comprou ou para os fabricantes. A lei, no entanto, depende de regulamentação e é tema de debate entre governo, varejistas e empresas. “Estamos construindo esse acordo, decidindo como será o mecanismo, quais serão as responsabilidades, as metas e os pontos de coleta”, diz Sabrina Andrade, diretora substituta de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A iniciativa, ressalta, é pioneira e traz desafios para ser levada à prática. “Não queremos chegar a uma coisa impositiva e que seja inexequível”, explica Sabrina. Não há prazo para a conclusão do termo.
Reciclagem Atualmente, o brasileiro tem a opção de procurar cooperativas e ONGs especializadas na reciclagem desse tipo de material em sua cidade ou simplesmente descartá-lo no lixo comum. De acordo com estimativa feita pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a coleta e o pré-processamento de resíduos eletrônicos representam em torno de 15% do faturamento das cooperativas de catadores. Mas a falta de formação para lidar com esse tipo de material e o lucro fácil com outros materiais como plástico ou papel costumam afastar os profissionais da atividade.
“É irrisório o tanto que se recicla em comparação com o tanto que se comercializa”, critica Alex Gonçalves, diretor da ONG de reciclagem e-Lixo, de Londrina (PR). No ano em que começou a atuar, a associação paranaense recebeu oito toneladas de resíduos. Quase seis anos depois, o grupo chega a lidar com 60 toneladas. Para Gonçalves, o brasileiro tem a iniciativa de dar um destino apropriado ao seu lixo quando tem a opção de fazê-lo. “Há essa cultura de prolongar ao máximo a vida do eletrônico, de passar para quem use”, acredita o empresário. Na e-Lixo, os equipamentos que ainda podem ser usados são doados para instituições de caridade, e somente o que não tem salvação vai para a reciclagem.
Esse tipo de organização recolhe, desmonta e separa o material, vendendo as partes para empresas interessadas em plástico, ferro, cobre ou alumínio. Os rejeitos, como vidros quebrados, são encaminhados para grupos especializados. Os componentes de alto valor agregado, como placas com ouro e platina, acabam exportados para tratamento fora do país. Estima-se que o Brasil tenha vendido para o exterior 20 mil toneladas de resíduos eletrônicos em 2011.
Fonte: Roberta Machado / O Estado de Minas
Foto: www.hypescience.com
