
Ensaio feito pelo fotógrafo Alaor Filho em uma viagem cheia de aventuras onde capturou com seu olhar belas imagens pela Transpantaneira, Poconé, Porto Jofre e Bacia de São Pedrinho no Mato Grosso.
Plantas que crescem com poluição e represas podem quase triplicar emissão de gases nocivos
CÁCERES ( MT)- O biólogo Ernandes Sobreira submerge nas águas escuras do rio Paraguai, o principal curso de água do Pantanal, com um tubo de ensaio plástico nas mãos. Ele afunda, de calça, camiseta e sapatos, por quatro metros ou mais, até coletar o sedimento depositado no fundo do rio. O mergulho dura alguns segundos, para horror de suas colegas de pesquisa:
– Eu não entro nesse rio com jacarés e piranhas. É muito perigoso – diz, com um riso nervoso, a estudante holandesa de biologia Jane Nauta, de 22 anos, que naquele dia viu três jacarés.
O mergulho de Sobreira é valioso para a ciência: ele comanda a primeira pesquisa sobre gases do efeito estufa no Pantanal. O biólogo, que faz doutorado na Universidade Radboud, na Holanda, estuda o comportamento do aguapé. Uma folhagem verde com uma singela flor roxa, a planta que boia sobre a água não revela seu potencial destrutivo; mas, na verdade, o aguapé é a maior praga aquática do mundo. Ela é conhecida por arruinar motores de barcos e engrenagens de hidrelétricas, e a pesquisa de Sobreira acaba de descobrir que, além da já conhecida má fama, a planta também pode ser vilã ao contribuir para o aquecimento global. A presença do aguapé em um ambiente aumenta em 2,6 vezes a quantidade de gases poluidores liberados na atmosfera, como o metano.
O aguapé ocorre naturalmente no Pantanal, mas em ambientes com barragens, erosão e sujeira a planta tende a se proliferar descontroladamente, enquanto algas, peixes e outros seres vivos morrem. Seu crescimento é tão veloz nessas condições que em apenas 12 dias as plantas dobram de tamanho. E acabam com o oxigênio presente na água. Com isso, o Pantanal poderia passar de um fonte receptadora de carbono para se transformar em emissora.
Trata- se de uma descoberta inédita em um contexto especialmente preocupante: apenas 4,5% da área compreendida pelo Pantanal são protegidos em reservas. E as agressões ao bioma são frequentes: há 126 projetos de pequenas centrais hidrelétricas em diferentes fases de processo de aprovação nos rios pantaneiros.
OITO TONELADAS DE LIXO A poluição é outro problema grave. A cidade de Cáceres, às margens do Rio Paraguai, lança diariamente o esgoto local nas águas do rio. No último mutirão de limpeza feito na área urbana, foram retiradas do leito quase oito toneladas de lixo. E recentemente uma plantação de soja foi iniciada às margens do Rio Paraguai, também em Cáceres. Em um cenário como esses, o Pantanal, que até onde se sabe é um poço estocador de carbono, pode se converter rapidamente em nova fonte de gases do efeito estufa.
– Eu fico apreensivo diante dos incentivos às hidrelétricas, da sujeira de agrotóxicos na água. Entendo que o país precise de energia e de alimentos, que as pessoas terão de usar a paisagem em seu proveito, mas é preciso estudar como o meio ambiente funciona e encontrar formas sustentáveis de explorá- lo – afirma Sobreira.
Entender como áreas alagadas se comportam quando modificadas pelo homem e como contribuem para as questões das mudanças climáticas é fundamental não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Os holandeses que acompanham a pesquisa, por exemplo, estudam a possibilidade de voltar a cobrir com água parte da porção oeste do país, onde fica a capital Amsterdã. Originalmente uma planície alagada, toda a área foi drenada. No entanto, o solo, rico em compostos orgânicos, se decompõe continuamente, o que tem provocado sérios problemas: – O resultado é que produzimos muito metano e CO2, e por isso a temperatura não para de aumentar. A média atual é de 10,8 graus Celsius por ano na Holanda, mas deve chegar aos 13 graus em cem anos. Uma nova tragédia pode acontecer – afirma Jan Roelofs, o chefe do departamento de ecologia aquática da Universidade de Radboud, que acompanha as pesquisas de Sobreira no Pantanal. A tragédia a que Roelofs se refere foi a mega enchente que atingiu o país, em 1953, quando boa parte do território holandês foi arrasado e 1.800 pessoas morreram. De lá para cá, o solo do país, já abaixo do nível do mar, segue a baixar, também por resultado da drenagem da planície alagada holandesa.
– Apenas recentemente começamos a entender a dinâmica dessas áreas alagadas. E as conclusões são alarmantes. Uma pequena ilha da Indonésia que foi drenada para se transformar em plantação de palma emite a mesma quantidade de gases do efeito estufa que todos os carros da Europa somados. Caso o Pantanal seque, ele poluiria mais do que todos os carros e aviões do mundo juntos – afirma Roelofs.
No período de cheias, o Rio Paraguai e seus afluentes chegam a subir mais de três metros. Diante da imensidão de água que cobre o solo pantaneiro e deixa apenas as copas das árvores à vista, parece improvável que tudo possa secar. Mas os pesquisadores concluíram que o equilíbrio do Pantanal segue uma delicada dinâmica e que é difícil reverter um processo de assoreamento. A pesquisa de Sobreira, apoiada pelo projeto Bichos do Pantanal, do Instituto Sustentar, que luta pela preservação do bioma, deve durar mais alguns anos. O pesquisador afirma que suas observações iniciais indicam que o Pantanal ainda não sofre com uma infestação de aguapés, mas que isso já acontece em barragens na Amazônia. Em Rondônia, Sobreira encontrou áreas que parecem um extenso campo de vegetação, mas que na verdade são reservatórios aquáticos. Um ambiente onde nada vive, além de aguapés.
A propósito da Amazônia, estudo recente da Universidade de Leeds mostrou que em pouco mais de 20 anos caiu pela metade a capacidade de a floresta absorver gás carbônico, o que poderia contribuir para aumentar mais o efeito estufa.
DEBATE SOBRE O CLIMA CHEGA À ALEMANHA
Começou ontem um novo encontro internacional que determinará como os chefes de Estado pretendem lidar com as mudanças climáticas. A Conferência de Bonn é o último grande encontro antes da Conferência do Clima de Paris ( COP 21), em que os países devem estabelecer um acordo limitando o aumento da temperatura global em até 2 graus Celsius.
Desde fevereiro, diversos países estão propondo métodos sobre como as conversas devem ser conduzidas no fim do ano, no encontro francês. As sugestões resultaram em um documento de cerca de 90 páginas e 4.232 linhas, com centenas de lacunas, que devem ser preenchidas e aprovadas por mais de 190 países.
O rascunho é semeado de discórdias. A China e os EUA, os maiores poluidores do planeta, querem que as metas de redução das emissões sejam baseadas em suas políticas domésticas. A União Europeia, porém, exige que todos sigam a mesma regulamentação. Outras sugestões radicais também estão presentes no texto, como a proposta da Bolívia de criar um tribunal para punir as nações que não cumprirem as metas determinadas.
– Não acredito que vamos sair de Bonn com um documento de poucas páginas – avalia Mark Kenber, diretor do Climate Group, uma consultoria independente que trabalha com negócios e governos. – Estes negociadores são treinados na arte de não ceder nada enquanto não forem obrigados.
Fonte: O Globo
Foto: Alaor Filho / Fotos Publicas
