DesmatamentoTão rico e tão castigado, o cerrado brasileiro agoniza diante da expansão das fronteiras agrícolas. Em 50 anos, metade dele desapareceu, o equivalente a 100 milhões de hectares ou toda a Europa ocidental. Hoje, comemora-se o dia do bioma, uma data para lembrar os desafios que o país tem pela frente, se quiser que a mais importante savana do mundo continue no mapa nas próximas cinco décadas.
“De um modo geral, a população não conhece a riqueza potencial de uma região como o cerrado. Ele é a savana mais rica em biodiversidade, mais que a africana. E as pessoas não se atentam a isso”, observa o engenheiro florestal Julio César Sampaio da Silva, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWW-Brasil. Ele lembra que, embora extremamente ameaçado, o bioma não desperta a mesma comoção que a Amazônia, por exemplo. Boa parte disso deve-se ao desconhecimento.

Poucas pessoas sabem, por exemplo, que o cerrado abriga 330 mil espécies de plantas e animais, sendo 837 de aves, 120 de répteis, 150 de anfíbios, 1,2 mil de peixes e 90 mil de insetos, além de 199 tipos de mamíferos. Com isso, o bioma é lar de 5% de todas as espécies do mundo e comprime 30% da biodiversidade brasileira.

Primo pobre

Em termos de políticas de conservação, contudo, ele é o primo pobre dos biomas brasileiros. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, apenas 8,31% do território do cerrado está protegido por lei, sendo que, desse total, apenas 2,85% são de proteção integral, ou seja, não podem sofrer qualquer intervenção. Para Julio César Sampaio da Silva, falta atualizar o mapa de áreas prioritárias que norteia as ações de proteção. Desde 2009, também não há dados novos sobre o desmatamento. “Isso mostra que, para o governo, o cerrado não é o tema mais importante”, critica.

As duas principais ameaças ao bioma são a soja e o pasto. Embora reconheça a importância econômica do agronegócio para a região e para o Brasil, o coordenador do WWF observa que o cerrado tem potencial de fornecer mercadorias rentáveis, sem necessidade de se intervir na flora original: hoje, há cerca de 150 produtos do extrativismo, como o buriti, matéria-prima utilizada por uma grande fabricante de cosméticos.

Por outro lado, a própria soja poderia, na opinião do engenheiro florestal, ser explorada de forma menos predatória, caso fossem adotadas certificações. “Hoje, o cerrado é um dos ecossistemas mais ameaçados do Brasil. Dado o ritmo que o desmatamento se encontra, ou fazemos algo agora, ou vamos perdê-lo”, alerta.

Fonte: Correio Braziliense

Foto: petbio.icb.ufg.br