implosao-predioSujeira fixada em construções das cidades tem alto potencial poluidor. Especialmente quando exposto à luz solar, o material libera de maneira rápida gases prejudiciais à saúde e ao meio ambiente
A poluição que preenche o ar das grandes cidades avança para a atmosfera, cobre a paisagem e invade os pulmões de quem respira o ar contaminado. Os culpados por esse fenômeno são velhos conhecidos do crescimento urbano, como as fábricas e os automóveis, que queimam combustíveis em troca de uma interminável nuvem de fumaça. No entanto, essa dinâmica esconde um agente secreto, que passa incógnito aos olhos das vítimas da poluição: os edifícios. Pesquisadores canadenses foram capazes de demonstrar que parte das emissões nocivas ao meio ambiente e à saúde que afetam as grandes cidades têm origem na sujeira que cobre as construções urbanas.
O estudo, apresentado ontem no Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), mostra como os óxidos de nitrogênio liberados entre os poluentes acabam “presos” na superfície de prédios, monumentos e todo tipo de grande superfície construída em uma grande cidade. O gás poluente sofre reações em contato com outros elementos e acaba depositado na fuligem em forma de ácido nítrico, pentóxido de dinitrogênio e partículas de nitrato de amônio.

O contato com o sol, então, causa uma reação fotoquímica, que libera o material para o estado gasoso. De volta ao ar, os compostos podem se combinar com outros poluentes e produzir ozônio, um gás que afeta a capacidade pulmonar. “A liberação dos óxidos de nitrogênio na fase gasosa é muito mais rápida (na presença da luz) do que o esperado”, ressalta James Donaldson, pesquisador do Departamento de Química da Universidade de Toronto. “No momento, nós não sabemos exatamente por que ela é tão rápida, mas há algumas ideias que ainda precisam ser testadas”, adiciona.

O grupo estuda o fenômeno há 15 anos e, inicialmente, realizou experimentos de laboratório com o auxílio de fontes artificiais de luz. Quando expostos à iluminação, os compostos de nitrato desapareciam da fuligem a uma velocidade 10 vezes maior do que fariam se estivessem misturados a uma solução à base de água. E, se comparada à sujeira mantida no escuro, a mistura colocada no ambiente de simulação solar perdia os óxidos de nitrogênio em ritmo muito mais acelerado. Os dados indicam que a luz ativa uma reação química sobre o poluente adormecido, convertendo o material à sua forma ativa e liberando-o para a atmosfera.

Esses resultados foram confirmados agora em um novo estudo feito no ambiente real de duas cidades: Leipzig, na Alemanha, e Toronto, no Canadá. Na primeira, que tem pouco mais de meio milhão de habitantes, os pesquisadores colocaram pequenas esferas de vidro sobre prédios localizados no centro urbano, onde os objetos poderiam coletar a poluição emitida naquela região. Enquanto parte das bolinhas ficou exposta à luz do sol, a outra foi propositalmente escondida em locais acessíveis à fumaça, mas que não recebiam a radiação natural. O material foi recolhido e analisado seis semanas depois.

A fuligem acumulada nas esferas que receberam luz solar tinha 10% menos nitratos do que a sujeira recolhida pelo vidro mantido na sombra. A diferença não poderia ser justificada por outros fatores, como a lavagem promovida periodicamente pela água da chuva. Para os pesquisadores, o resultado comprova os índices obtidos nos experimentos de laboratório. Em Toronto, foi conduzida uma versão mais longa desse mesmo experimento, mas os dados ainda estão sendo analisados. A expectativa é que eles forneçam um retrato mais detalhado do fenômeno, incluindo como ele muda de acordo com as estações do ano.

Mudança de cenário

Donaldson ressalta que os modelos que descrevem a dinâmica de poluição em centros urbanos não incluem o processo de “reciclagem” dos óxidos de nitrogênio. Assim, podem ignorar uma grande quantidade de informação e até mesmo subestimar o potencial de formação de gás ozônio em centros urbanos. “A nova liberação de óxidos de nitrogênio certamente afeta a poluição local, já que o dióxido de nitrogênio em si é um poluente, mas também reage com a luz do sol para formar o ozônio”, descreve. Os pesquisadores ainda não sabem dizer se o mesmo processo pode acontecer com outros dos milhares de compostos químicos que formam a fuligem encontrada em metrópoles afetadas pela poluição.

O impacto dessa “reciclagem” de poluentes ainda não pode ser medido e, provavelmente, é diferente, de acordo com o clima e a localização de cada cidade. Os autores dos estudos assumem a falta de dados que possam quantificar o efeito do fenômeno, um fato que é recebido com ressalvas por especialistas. “Embora digam que o processo de fato ocorra sobre a superfície dos prédios, através da liberação de óxidos de nitrogênio provenientes das substâncias orgânicas sobre eles depositadas, parece haver dúvida quanto à extensão do problema”, ressalta William Zamboni de Mello, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“A meu ver, o problema passa a ser preocupante se essa for uma fonte de contribuição quantitativamente significativa, quando comparada à de outras fontes naturais, como a emissão dos solos com cobertura vegetal natural e as fontes antrópicas, que são as emissões veiculares dentro do ambiente urbano e arredores”, justifica o especialista brasileiro, que não participou da pesquisa.

O grupo ainda espera fazer novos experimentos em cidades mais poluídas e em locais mais limpos, o que ajudará na comparação dos resultados e na compreensão de como os índices de emissões influenciam esse fenômeno. Com dados mais detalhados, seria possível estimar, inclusive, o potencial de poluição de um único edifício. Eles ainda devem realizar medições mais detalhadas para descrever como o índice de radiação solar, a umidade e outros fatores podem afetar a reciclagem de óxidos de nitrogênio.

Fonte: Correio Braziliense

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