É possível canalizar a poupança para onde ela é urgentemente necessária.
A finalidade do sistema financeiro mundial é alocar a poupança mundial para seus usos mais produtivos. Quando o sistema funciona bem, essa poupança é canalizada para investimentos que elevam os padrões de vida; quando funciona mal, como nos últimos anos, ela é canalizada para bolhas imobiliárias e projetos prejudiciais do ponto de vista ambiental, como os que exacerbam a mudança climática induzida pelo homem.
O ano de 2015 será um ponto de inflexão nos esforços destinados a criar um sistema financeiro mundial que contribua para a segurança climática, e não para a falência climática. Em julho, os governos do mundo inteiro vão se reunir em Adis Abeba, a capital da Etiópia, para formular um novo marco regulatório para o financiamento mundial.
O objetivo do encontro será fazer avançar um sistema financeiro que apoie o Desenvolvimento Sustentável, no sentido de um crescimento econômico socialmente inclusivo e ambientalmente saudável. Cinco meses depois, em Paris, os governos mundiais vão assinar um novo acordo mundial para controlar a mudança climática induzida pelo homem e canalizar recursos para a energia segura em termos climáticos. As medidas virão a se somar aos avanços alcançados em dezembro nas negociações em Lima, Peru. Lá também, as finanças serão importantes.
Os fundamentos estão claros. A segurança climática exige que todos os países mudem seus si
stemas energéticos, afastando-se de carvão, petróleo e gás rumo a fontes eólicas, solares, geotérmicas e outras de baixo carbono. Deveríamos também testar a viabilidade da captura e sequestro de carbono (CCS, nas iniciais em inglês) de grande escala, o que poderia facultar o uso seguro, de longo prazo, de pelo menos alguns combustíveis fósseis. Em vez disso, o sistema financeiro mundial continuou a injetar centenas de bilhões de dólares ao ano na exploração e desenvolvimento de novas reservas de combustíveis fósseis, destinando muito pouco à captura e sequestro de carbono.
Muitos investimentos em novas reservas de combustíveis fósseis vão perder dinheiro – e muito dinheiro – devido à recente queda dos preços mundiais do petróleo. E muitas das reservas de combustíveis fósseis atualmente exploradas pelas empresas acabarão “encalhadas” (deixadas no solo) como parte das novas políticas climáticas mundiais. O fato, em poucas palavras, é que o mundo dispõe de muito mais combustíveis fósseis do que o que pode submeter à combustão com segurança, diante das realidades da mudança climática induzida pelo homem.
Embora os sinais do mercado ainda não estejam muito claros, os investidores mais bem-sucedidos deste ano foram os que venderam suas participações em combustíveis fósseis, evitando, assim, o colapso dos preços do petróleo. Talvez eles apenas tenham tido sorte este ano, mas sua decisão de desinvestir faz sentido no longo prazo, por antecipar corretamente a futura mudança de política pública de abandono dos combustíveis fósseis em direção à energia de baixo carbono.
Muitos grandes fundos de pensão e fundações dos Estados Unidos e da Europa promoveram essa mudança recentemente. Elas deram sensatamente atenção às palavras de Lord Browne, ex-principal executivo da colosso do petróleo BP, que observou recentemente que a mudança climática representa uma “ameaça existencial” ao setor petrolífero.
Mais governos estão lançado atualmente a fixação de preços do carbono, de modo a refletir os elevados custos sociais inerentes ao uso continuado de combustíveis fósseis. Cada tonelada de dióxido de carbono (CO2) emitida na atmosfera pela combustão de carvão, petróleo ou gás aumenta o aquecimento mundial de longo prazo, e, portanto, os custos de longo prazo a serem infligidos à sociedade pelas secas, enchentes, ondas de calor, severas tempestades e elevação do nível do mar.
Embora esses custos futuros não possam ser previstos com precisão, as recentes estimativas situam o atual custo social de cada tonelada a mais de CO2 atmosférico em US$ 10 a US$ 100, enquanto o governo americano usa, por seu lado, uma estimativa intermediária de cerca de US$ 40 para orientar a regulamentação energética.
Alguns países, como a Noruega e a Suécia, lançaram, muito tempo atrás, um imposto sobre as Emissões de CO2 de modo a refletir um custo social de US$ 100 por tonelada, ou até mais. Muitas empresas privadas, entre as quais grandes empresas petrolíferas, inauguraram, também recentemente, um custo contábil interno de Emissões de carbono para pautar suas decisões relativas a investimentos em combustíveis fósseis. Essas providências possibilitam às empresas antever as consequências financeiras das regulamentações governamentais e da taxação futuras.
Na medida em que um maior número de países e de empresas introduzirem a fixação de preços do carbono, o custo contábil interno das Emissões de carbono vai aumentar, e os investimentos em sistemas energéticos de baixo carbono vão ganhar atratividade. Os sinais do mercado referentes à taxação sobre o CO2 (ou ao custo das licenças de emissão de CO2) vão contribuir para que os investidores e gestores de investimentos evitem novos investimentos em combustíveis fósseis.
Com a queda dos preços internacionais do petróleo – de colossais US$ 40 o barril desde o terceiro trimestre de 2014 –, este é o momento ideal para os governos introduzirem a fixação de preços do carbono. Em vez de deixar o preço ao consumidor do petróleo cair de acordo com esse valor, os governos deveriam adotar um imposto sobre o carbono.
Os consumidores sairão ganhando. Pelo fato de cada barril de petróleo emitir aproximadamente 0,3 tonelada de CO2, um imposto sobre o carbono de, digamos, US$ 40 por tonelada de CO2 implicará um imposto sobre o petróleo de apenas US$ 12 por barril. E, pelo fato de os preços do petróleo terem caído em mais de o triplo do imposto, os consumidores continuarão a pagar muito menos do que pagavam há alguns meses atrás.
Além disso, as novas receitas geradas pelos impostos sobre o carbono seriam uma bênção para os governos. Os países de alta renda prometeram ajudar os países de baixa renda a investir em segurança climática, tanto em termos de energia de baixo carbono quanto em termos de resistência a choques climáticos. Prometeram US$ 100 bilhões em financiamento relacionado ao Clima por ano, a partir de 2020, em relação aos aproximadamente US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões deste ano. As novas receitas de um possível imposto sobre o CO2 serão a maneira ideal de honrar esse compromisso.
Os cálculos são simples. Os países de alta renda emitiram cerca de 18 bilhões de toneladas de CO2 este ano – cerca de metade do total das Emissões mundiais. Se esses países reservarem apenas US$ 2 por tonelada de CO2 para organizações financeiras mundiais como o novo Fundo Climático Verde e os bancos de desenvolvimento regionais, transferirão por volta de US$ 36 bilhões ao ano. Usando-se parte desse dinheiro para mobilizar o financiamento do setor privado, seria possível alcançar o total de US$ 100 bilhões de financiamento climático.
Tanto o establishment das petrolíferas quanto o das instituições financeiras cometeram grandes erros nos últimos anos, ao canalizar recursos para investimentos socialmente destrutivos. Em 2015, esses dois poderosos setores, e o mundo como um todo, poderão começar a corrigir as coisas. Temos ao nosso alcance os requisitos para um novo sistema financeiro mundial que canaliza a poupança para onde ela é urgentemente necessária: Desenvolvimento Sustentável e a segurança climática, para nós e para as gerações futuras. (Tradução de Rachel Warszawski)
Jeffrey D. Sachs é professor de Desenvolvimento Sustentável, de Política e Gestão de Saúde e diretor do Instituto da Terra da Universidade de Columbia. É assessor especial do secretário-geral da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
Fonte: Valor Econômico
Foto: Envolverde
