aguaA saúde indígena no Brasil foi discutida em audiência pública na manhã desta quinta-feira, 26, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados.

Autor do requerimento para o debate, o deputado Sarney Filho (PV-MA) presidiu a audiência, que contou com a participação de Patrícia Chagas Neves, Coordenadora-Geral de Promoção dos Direitos Sociais da Funai; João Paulo botelho, pesquisador do Centro de Diabetes da Unisesp; Laércio Fidelis, professor de antropologia da Unesp; Antônio Alves de Souza, secretário da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai); Yefuka Kaiabi, da aldeia Kaiabi, no Parque Indígena do Xingu/MT; Rafael Waree, Xavante Marãiwatsédé/MT; e Fernando Schiavini, indigenista, escritor e especialista na etnia dos índios Kraô/TO.

Antônio Alves, secretário da Sesai, apresentou um breve panorama dos povos indígena do Brasil e reconheceu que a saúde para os povos indígenas é uma das questões mais delicadas e problemáticas da política indigenista oficial. Segundo ele, sensível às enfermidades trazidas por não-indígenas e, muitas vezes, habitando regiões remotas e de difícil aceso, as populações indígenas são, cada vez mais, vítimas de doenças como tuberculose, infecções respiratórias, hepatite, diabetes, hipertensão arterial, câncer de colo de útero, uso abusivo de álcool e drogas, entre outras.

Pesquisador do Centro de Diabetes da Unisesp, João Paulo Botelho afirmou que os indios xavantes das terras indígenas de Sangradouro e São Marcos, em Mato Grosso, estão sofrendo uma epidemia de diabetes, com índices de prevalência da doença em 28,2% da população adulta – valor quatro vezes maior que a média no país. A constatação é de uma pesquisa desenvolvida com 948 adultos das duas terras indígenas.

De acordo com o estudo, que também aponta obesidade em 50,8% desta população xavante, a epidemia de diabetes tem relação direta com a perda da cultura e dos hábitos alimentares dos indígenas, que têm consumido açúcar e alimentos industrializados.

Com base nas medições de glicemia entre os índios, o pesquisador constatou a prevalência de diabetes do tipo 2 em 18,4% dos adultos homens e em 40,6% das mulheres. Os índices extrapolam significativamente a média de prevalência da doença na população brasileira em geral, que é de 7%, enfatizou João Paulo Botelho, que estuda os xavantes das terras indígenas de Mato Grosso desde 1976.

Segundo o pesquisador, entre os fatores que provocaram os atuais índices de obesidade e de prevalência de diabetes entre os xavantes estão a predisposição genética e os processos de perda da cultura alimentar nas aldeias, bem como o sedentarismo.

Botelho explica que em 2010 foi identificado um gene exclusivo dos povos indígenas das Américas que, durante milênios, ajudou-os em períodos de fome e procriação a reter energia. Entretanto, em um contexto no qual eles já não enfrentam adversidades para obter alimentos, o mesmo gene tende a provocar sobrepeso e obesidade.

“A essa predisposição genética para acúmulo de gordura somam-se o processo de perda dos tradicionais hábitos alimentares e o sedentarismo. Dados o contato com a população das cidades no entorno e o acesso a itens comercializados, aos poucos os indígenas abandonaram sua rotina de caça e coleta e de cultivo em pequenas roças de alimentos como mandioca, cará, abóbora, batata doce, feijão e milho, entre outros”, ressaltou.

O indígena Rafael Waree, Xavante Marãiwatsédé, disse que não existe um trabalho de conscientização para resgatar as tradições indígenas, principalmente em relação à alimentação. Aliado a isso, ele lamentou a crescente falta de autoridade dos caciques frente aos jovens indígenas, que são cada vez mais atraídos pelo modo de vida do homem branco. Rafael também reconheceu que a Sesai não tem estrutura para resolver essa problemática e sugeriu que seja realizado um trabalho de prevenção, com foco na alimentação.

Rafael também denunciou o triste quadro da saúde indígena no Brasil. Segundo ele, são comuns os relatos de morte de pacientes nas aldeias em razão da demora nas remoções, ausência de medicamentos básicos nos postos de saúde, inexistência de médicos para o atendimento nas comunidades, falta de estrutura nas Casas de Saúde Indígena (Casai), que muitas vezes estão em situação de completo abandono.

Patrícia Chagas, da Funai, também ressaltou a importância de se resgatar a alimentação tradicional dos povos indígenas e de garantir a saúde diferenciada aos índios. Ela chamou a atenção, contudo, para outro fator que também tem afetado diretamente a saúde dos índios: a PEC 215. Segundo Patrícia, a relação que os índios têm com suas terras é quase visceral, assim, qualquer ameaça nesse sentido, a exemplo da iminência da aprovação da PEC 215, altera significativamente o estado emocional desses povos.

Assessoria de comunicação Lid/PV

Foto: Paula Laport