rosaneDeputada Rosane Ferreira admite dificuldades, mas vê nas manifestações populares o “combustível” para uma candidatura ao governo fora da polarização PSDB-PT

A deputada federal Rosane Ferreira foi indicada pelo Partido Verde como pré-candidata ao governo do Estado para 2014. E apesar das dificuldades que ela mesma admite que a legenda terá para sustentar uma candidatura competitiva ao Palácio Iguaçu, acredita que há espaço para um nome alternativo ao cenário de polarização entre o PSDB do governador Beto Richa e o PT da ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.

Rosane baseia essa cresça no sentimento popular de renovação dos costumes políticos que abalou o País a partir das manifestações de rua de junho. Ao mesmo tempo a parlamentar do PV – que integrou a comissão especial de reforma política – cobra também do eleitor uma “cumplicidade” que hoje diz não ver. “Ele (o eleitor) também não cobra, esquece em quem votou”, afirma Rosane, para quem qualquer mudança na qualidade da atividade política do Brasil depende fundamentalmente de uma mudança de atitude de quem vota.

Em entrevista ao Bem Paraná, a deputada fala sobre os planos para a eleição, a viabilidade de se compatibilizar desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental, e a crença de que há uma “avenida larga” para o novo na política brasileira.

Bem Paraná – Os críticos da legislação ambiental brasileira dizem que ela é excessivamente restritiva, o que prejudicaria o crescimento econômico e o desenvolvimento do País. É possível conciliar crescimento com sustentabilidade ambiental?

Rosane Ferreira – Isso é primordial para o nosso País. É essencial essa conciliação. Não podemos ter o ‘xiitismo’ do movimento ambiental, que muitas vezes vai à ferro e fogo, esquecendo que o País é um País agrícola, principalmente o nosso Estado. Por outro lado, não podemos nos conformar com isso, de sermos só exportadores de produtos primários, inclusive na área agrícola, e não agregar valores. Nós tínhamos um código florestal em vigor, absolutamente avançado. Que ao mesmo tempo em que era muito avançado, não era cumprido. E esse é um grande problema nosso. Temos ótimas leis que não saem do papel. Não adianta termos uma lei rígida, com sanções claras, multas milionárias que nunca são pagas e nunca revertem para o meio ambiente. A reserva legal, por exemplo, é importantíssima. Nós temos 40% da biodiversidade do planeta. Isso é um patrimônio e nós temos que cuidar dele porque isso tem valor, inclusive econômico. Agora não adianta ter uma região com um retalho de reserva legal em uma propriedade e outro retalho em outra, com esses 20% não se comunicando. É muito melhor eu discutir isso e criar os corredores de biodiversidade. É melhor discutir com esse proprietário e fazer a compensação da reserva legal da área dele na área de um outro de forma a promover o crescimento e o desenvolvimento dessa biodiversidade. Hoje nós temos ilhas que não permitem troca genética nem da fauna, nem da flora. A questão de rios, não adianta dizer que vai ter uma legislação que vai garantir 100 metros de cada margem do rio, quando isso não era cumprido. Eu prefiro 30 (metros) efetivamente cumpridas de forma a fazer uma barreira de proteção aos recursos hídricos, do que 100 (metros no papel).

BP – A Assembleia Legislativa anunciou a criação de uma comissão para discutir um código florestal para o Estado, alegando que o código nacional não leva em conta peculiaridades regionais. Como vê essa iniciativa?

Rosane – Concordo. Não dá para tratar a Mata Atlântica da mesma forma que trata o Pantanal ou a floresta amazônica. Os biomas têm que ser respeitados sempre de forma a proteger o solo, a flora e a fauna e deixar o homem viver com dignidade. Se o homem tiver fome ele come o último mico leão dourado nas brasas do último pinheiro de araucária, e isso a gente não pode nunca tirar da nossa visão. Eu concordo desde que nós tenhamos uma diretriz macro. O Requião era contra os Transgênicos. O Beto (Richa) não está aí. Se nós não tivermos uma regulamentação de Estado, nós ficamos reféns de governo. E tem que ser discutido com toda a sociedade, e não o poder econômico ditando as regras.

Crise nos partidos

“Falta cumplicidade do eleitor para com o eleito”

Bem Paraná – O Partido Verde surgiu em um momento de crise dos partidos tradicionais e hoje vivemos novamente uma situação de crise da representação partidária em meio as manifestações populares. Como o PV se posiciona nesse cenário?

Rosane Ferreira – Na verdade o PV tem problemas também como os outros partidos. Estamos inseridos em um sistema. O sistema eleitoral e a forma com que são ocupadas as cadeiras nos diversos poderes é um grande equívoco no nosso País. Temos eleições caríssimas, as mais caras do mundo. Essa falta de credibilidade vem junto com uma falta de cumplicidade do eleitor para com o eleito. Porque ele também não cobra, esquece em quem votou. Ele não dá crédito, mas também não cobra. Essa história de que três meses depois das eleições, 70% não se lembra de em quem votou para deputado é fato. O PV tem ainda credibilidade. Não sei se talvez, por não termos o poder de fato em nossas mãos, ainda não temos o desgaste de sermos poder até o momento. Como tem o PT, o PSDB, e o PMDB como coadjuvante de primeira hora. O PV ainda tem isso por ser um partido pequeno e não ter sido vitrine. O PV tem uma preocupação imensa de construir uma saída. Por conta disso, desde que cheguei à Câmara, fiz parte de todos os grupos formados para fazer a reforma política. A comissão especial, não conseguimos sequer apresentar o relatório final. Na sequência tivemos a criação de um grupo para a minirreforma que também bateu na trave. Agora terminamos um trabalho que entregamos para o presidente ( da Câmara, Henrique Eduardo Alves, do PMDB), e conseguimos as assinaturas para que fosse criada uma Proposta de Emenda Constitucional. Ele prevê o voto facultativo. A coincidência de mandatos com eleições gerais onde vamos eleger de vereador a presidente da República em uma única vez. É um grande caminho. Porque hoje com eleições de dois em dois anos são absolutamente casadas. Deputados elegem vereadores e prefeitos para que vereadores e prefeitos os reelejam. E isso faz o País parar a cada dois anos. Os orçamentos não dialogam entre si. Nós propomos emendas (parlamentares) e os prefeitos não se reelegem, as emendas caem. A circunscrição – uma espécie de distritalização das eleições. O Paraná, a ideia é que seja dividido em quatro ou cinco regiões. Isso vai fazer com que o deputado esteja muito mais presente em sua região. Eu também não vou brigar com meu companheiro. Hoje o maior adversário é o próprio companheiro de partido.

BP – A reforma política sempre esbarra no interesse dos partidos e parlamentares, que estão mais preocupados com a próxima eleição. A senhora vê condições para que se supere esse impasse?

Rosane – Eu não votei no Henrique Alves para presidente. Mas aprendi a confiar nele. Não foi fácil votar e aprovar o orçamento impositivo com relação as emendas parlamentares. Hoje os deputados são reféns das emendas. A população não entende que o papel do deputado não é levar ponte ou ônibus ou asfalto. O papel é legislar, discutir o orçamento, e fazer com que ele seja cumprido, e que os recursos sejam usados sem corrupção, sem desvios, sem superfaturamento. Chega no final do mandato a pergunta é: ‘o que ele trouxe’. E para ele trazer as coisas, a chave do cofre está sempre na mão do Executivo. E isso faz com que sejamos reféns do Executivo. O Henrique Alves, quando propõe o orçamento impositivo, isso nos deixa livre. Vamos poder trazer a ponte independente de ser subserviente ou não ao Executivo. Quando ele faz isso, faz com que eu acredite nele. Ele foi para a imprensa e disse que em março votamos a reforma política. E eu acredito.

Eleições 2014

“Não aceito lotear o Estado por tempo de televisão”

Bem Paraná – O PV anunciou recentemente a intenção de lançar a senhora como candidata ao governo. Como a senhora vê o cenário para a disputa no Estado e como o partido se insere nesse processo?

Rosane Ferreira – Eu fui eleita deputada estadual com uma chapa completa do partido. E fui eleita deputada federal também com uma chapa completa de candidatos ao Senado e ao governo do partido. Isso tem feito com que o partido tenha crescido. Tenha visibilidade. Não posso me furtar desse papel se isso for deliberação do partido lá no final. Essa deliberação se dará em junho do ano que vem. Mas nós vamos nos preparar para isso. Ver qual é o tamanho da máquina do Estado, o porque de estarmos com as contas comprometidas. Fazer um diagnóstico do Estado e das demandas. Nosso objetivo é chegar com esse documento pronto em junho. Se tivermos dominando essas duas áreas, porque não disputar?. Eu terei muitas dificuldades para disputar porque eu jamais aparelharia uma Sanepar ou uma Copel como está hoje. Não aceito lotear o Estado, como isso é feito, por partido, por tempo de televisão. Mas quem sabe eu possa discutir isso com a sociedade e a sociedade possa fazer a escolha.

BP – Qual a sua avaliação sobre o governo Beto Richa?

Rosane – Eu tenho um grande problema com o governo Richa que é a nossa Sanepar. Não consigo aceitar que o órgão responsável pelo saneamento básico, pelo tratamento da água e do esgoto esteja indiciado pela Polícia Federal e multado pelo Ibama como poluidor ambiental. Lamentei muito a forma como o governo tratou essa matéria. No dia seguinte em que a PF adentrou na Sanepar todos os meios de comunicação veiculam uma propaganda institucional imensa até para não debater o que lá se deu. Respeito o governador. Acho que ele age com diplomacia, discute. Até tenta enfrentar os problemas. Mas as grandes feridas ele não põe o dedo. Também não consigo entender e aceitar que a Sanepar seja uma espécie de refúgio, de asilo de políticos mal sucedidos.

Polarização

“Política partidária é imprescindível”

Bem Paraná – Hoje o cenário no Paraná aponta para uma polarização PSDB-PT. A senhora acha que há espaço para uma terceira via?

Rosane – Eu não tenho dúvida disso. E não sou eu que estou falando. São as ruas. Quando a sociedade foi as ruas – eu não estou falando do que se derivou, do que está agora – estou falando dos movimentos de junho, em que a sociedade resolveu se manifestar e dizer que ‘beltrano, fulano não me representa’. Essas pessoas não aceitaram nenhum cartaz dos políticos, dos partidos colocados hoje com poder. Essa sociedade está ávida. Nós temos que mostrar que a política partidária é imprescindível. Essa sociedade está em busca do novo.

BP – Mas os aliados da presidente dizem que ela já recuperou sua popularidade?

Rosane – É óbvio que a política não é estática, é dinâmica. Quando se diz que o programa Mais Médicos ou a questão da espionagem dos Estados Unidos foi efetiva para a recuperação da popularidade da presidente, isso é real. Porque a população se sente protegida. Mas essa avaliação vai se dar em 2014. Vamos ver se os médicos cubanos – que eu defendi o projeto – efetivamente atenuaram essa demanda. Eu acho que em 2014, os estádios de futebol estarão feitos e estarão lindos. Mas não acredito que nós tenhamos – porque teríamos que ter feito outras políticas – resolvido a questão da saúde. O dinheiro dos royalties do petróleo ainda não estarão em nossas escolas. E tudo isso vai fazer com que se busque o novo. E tudo isso me leva a crer que a avenida para o novo é larga. Mas é o novo de verdade, não é o novo da cara nova. Porque o novo da cara nova a gente já experimentou com o (Fernando) Collor. É o novo com ‘sustância’ como diria a minha mãe. O novo que faça com que as pessoas voltem a acreditar. Eu espero que o Partido Verde consiga construir esse novo. Não estou dizendo que o PV já tenha esse novo. Estou dizendo que a gente tem tempo para construir, buscar uma proposta nova e factível para esse País, que é maravilhoso.

Fonte: JORNAL DE CURITIBA – PR | POLÍTICA