Em uma tentativa desesperada de evitar um colapso do reservatório da usina hidrelétrica de Sobradinho, no rio São Francisco, medidas extremas estão sendo planejadas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Se não houver uma melhoria abrupta no regime de chuvas e não forem tomadas medidas adicionais para economizar o pouco de água que resta em Sobradinho, as projeções indicam que o reservatório pode entrar no “volume morto” entre o fim de novembro e o início de dezembro.
Trata-se de um risco inédito para a usina, construída nos anos 1970, que tem o terceiro maior lago artificial do mundo. O reservatório tem capacidade para 28 bilhões de litros no volume útil e hoje está com 5,8% do estoque máximo. Há outros 6 bilhões de litros abaixo da atual linha de captação das águas. Para aproveitar essa reserva, é preciso concluir uma série de obras emergenciais. A estatal Codevasf já providenciou o fornecimento de bombas flutuantes e a instalação de tubulações, mas as empresas contratadas pediram um prazo até meados de dezembro para concluir os trabalhos.
Diante do risco de desabastecimento hídrico na região, a Codevasf tenta antecipar a entrega das obras. A ordem do governo é dar prioridade total ao fornecimento de água e deixar a geração de energia em segundo plano. Por isso, a usina tem funcionado com menos de 15% de sua potência, que é de 1.050 megawatts (MW).
Além do consumo humano, uma das preocupações é com o perímetro de irrigação Nilo Coelho, na divisa da Bahia com Pernambuco. Esse arranjo produtivo emprega cerca de 100 mil pessoas e é responsável pelas exportações de uva e manga do país.
Nas projeções oficiais, o reservatório pode se esgotar e chegar à marca de -0,13% no dia 30 de novembro. As chuvas no Nordeste continuam muito abaixo da média histórica e o fenômeno climático El Niño deve atrasar a volta do período úmido na região.
Sob liderança da ANA, as autoridades estudam a possibilidade de reduzir novamente a vazão de Sobradinho, limitando ainda mais a quantidade de água que sai do reservatório. Historicamente, a vazão liberada é de 1.300 metros cúbicos por segundo. No racionamento de energia em 2001, esse volume caiu temporariamente para 1.100 m3 /s.
Esse expediente emergencial voltou a ser usado em 2013, em meio à crise energética, sem data para acabar. Em junho deste ano, pela primeira vez, a agência reguladora autorizou um limite mínimo de 900 m3 /s. Para isso, foram feitas análises de impacto ambiental, que ganharam o crivo do Ibama. O comitê da bacia hidrográfica do São Francisco, no entanto, sempre viu com ressalvas essa vazão reduzida. Alega riscos de salinização do rio, com entrada de água do mar em pontos cada vez mais distantes do litoral, e de desmoronamento das margens. Agora, a medida pode ser radicalizada e cogita-se reduzir ainda mais a vazão, para até 800 m3 /s.
Paralelamente, estuda-se também aumentar o volume de água liberado pelo reservatório de Três Marias, em Minas Gerais. Quanto mais água é liberada por lá, mais água chega a Sobradinho. Eram liberados 400 m3 /s, a quantidade foi elevada recentemente para 500 m3 /s e pode subir para até 600 m3 /s. Com essas duas medidas, o governo espera atravessar a reta final do período de estiagem e evitar um colapso nos reservatórios do São Francisco até a volta das chuvas. Se ambas forem tomadas, o cálculo é que Sobradinho pode chegar a dezembro com 2,5% de estoque.
O problema dessa estratégia é acelerar o esvaziamento de Três Marias. Hoje o reservatório está com 17% e a previsão é atingir 8,3% no fim de novembro. Caso a vazão de saída seja ampliada, esse estoque poderia cair a 4,8%.
Fonte: Valor Econômico
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