Segundo pesquisadores, o Brasil precisa considerar a possibilidade de o aquecimento global superar os 2ºC e planejar políticas que minimizem os efeitos do fenômeno. Um aumento acima dos 4ºC pode dizimar lavouras e provocar graves epidemias
contrastando com terras castigadas pela seca, escassez de alimento, desemprego, calor, doenças e mortes. Não se trata de um roteiro de ficção científica apocalíptica: a descrição, segundo cientistas, é uma projeção do que realmente pode acontecer no Brasil caso o aquecimento global ultrapasse os 4ºC. As previsões, elaboradas por especialistas brasileiros em clima, estão no relatório Riscos de mudanças climáticas no Brasil e limites de adaptação, elaborado com apoio da Embaixada Britânica e apesentado ontem em Brasília.
O objetivo dos pesquisadores não é causar pânico, mas tornar o país mais preparado para reagir caso o aquecimento global não fique limitado a menos de 2ºC, meta estabelecida durante a Conferência das Partes em Paris, no fim do ano passado. E estar pronto para adotar políticas públicas que reduzam os efeitos de um aquecimento extremo é importante, argumentam, uma vez que essa é uma possibilidade real.
Trabalhando com diferentes cenários, os autores afirmam que há 40% de chances de a temperatura média da Terra subir mais que 2ºC em relação ao período pré-industrial, no século 18. Na mais pessimista – porém, possível – das projeções, há risco elevado de o aquecimento superar os 4ºC até 2100, com tendência de que o acréscimo passe dos 7ºC na virada do século. As estimativas são fruto de uma minuciosa revisão de estudos publicados entre 2015 e 2016, que também embasaram o grupo a prever as consequências que um aumento acima de 4ºC, caso ocorra, trará para quatro setores-chave do Brasil: agricultura, saúde, biodiversidade e energia.
“Na agricultura brasileira, não discutimos a perda de produtividade, mas o aumento (no número de) áreas de alto risco climático. Se aquecer muito, teremos problemas de produção em áreas que deixarão de ser de baixo risco e passarão a ser de alto risco”, explica Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e coautor do estudo. Em outras palavras, áreas produtivas, importantes para a expansão agrícola, serão perdidas. Culturas como as da soja, que atingiram um patamar tecnológico alto, sofrerão ainda mais, visto que não terão tanto potencial para crescer. Esse produto sofrerá uma perda de até 81% em áreas hoje de baixo risco.
Nesse cenário, as perdas de terreno fértil para culturas de feijão serão de 57%, fazendo com que a produção seja confinada aos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde as temperaturas são mais amenas e há reduzido deficit hídrico. Algo semelhante ocorrerá com o milho-safrinha, que também deverá ter sua produção restrita ao Sul, graças à redução das geadas.
Doenças
O clima mais quente representará também uma ameaça à vida dos habitantes de vários estados. Nas unidades federativas das regiões Norte e Centro-Oeste e no Maranhão e Piauí, serão constantes temperaturas a partir de 30ºC. O calor tem efeito na saúde, sendo o mais grave deles o estresse. Máximas contínuas acima de 37ºC e com alta umidade impedem que o organismo humano perca o calor pela transpiração, um quadro que pode levar à morte, especialmente de idosos e crianças. Também espera-se nessas áreas uma queda na produtividade dos trabalhadores, especialmente aqueles que lidam com roça ou outros tipos de serviços braçais, como os da construção civil.
Ainda dentro das piores projeções, entre 2071 e 2099, municípios das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul apresentarão condições térmicas ainda mais favoráveis ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, da chicungunha e da zika. Se o aumento de temperatura ficar entre 4,6ºC e 5,1ºC, Espírito Santo e Rio de Janeiro viverão grandes epidemias de dengue nas três últimas décadas do século. Já o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, devido ao aumento das chuvas, terão acréscimo de 150% nos diagnósticos de leptospirose. Em 34% dos municípios do Norte, poderá haver aumento de 50% dos casos de diarreia até 2099, doença que afetaria 64% da população infantil.
No mundo inteiro, a biodiversidade poderá sofrer um aumento de 15,7% no risco de extinção de espécies, sendo a América do Sul a região mais afetada. As abelhas da Mata Atlântica são particularmente vulneráveis, assim como plantas e frutos comestíveis do cerrado. No setor energético, haverá deficit no atendimento da demanda elétrica. “E isso pode fazer com que os gestores imaginem que utilizar energias renováveis não valha a pena e que é melhor partir para a queima de fósseis. O que será ruim, pois agravará ainda mais a situação climática”, diz Roberto Schaeffer, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro e também autor do estudo.
Carlos Nobre, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e um dos autores do relatório, reforça que, apesar das evidências, os formuladores negligenciam medidas de mitigação por acreditarem que a baixa probabilidade dos eventos extremos relatados no estudo não justifica o esforço. Falta o que ele chama de “princípio da precaução”, que é adotado por diversos setores, como o da saúde, mas ainda negligenciado em discussões sobre o clima. “Em saúde, há um exemplo muito atual: no momento em que os médicos perceberam que poderia existir relação do zika vírus com a microcefalia, aconselharam as mulheres a adiarem a gravidez. Eles se anteciparam com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), mesmo sem evidências científicas”, compara o climatologista e membro do Painel Intergovernamental para Mudanças do Clima (IPCC, na sigle em inglês), ligado às Nações Unidas.
Alerta britânico
Estudo publicado na revista The Lancet por especialistas da Universidade de Oxford também faz um alerta sobre os impactos das mudanças climáticas sobre a humanidade. De acordo com os autores, o aquecimento pode matar mais de 500 mil adultos em todo o mundo em 2050 devido à redução de produtividade das lavouras. A mudança climática poderá cortar em um terço a oferta de alimentos a partir da metade deste século. Os cientistas preveem uma diminuição de 4% no consumo de frutas e vegetais e de 0,7% na ingestão de carne vermelha. Países de baixa e média renda serão mais afetados, especialmente os do Pacífico Ocidental e Sudeste da Ásia.
Fonte: Correio Braziliense
Foto: Exame
