No Brasil, Anvisa analisa, desde março, pedido da Sanofi Pasteur para comercializar imunizante no país. Doença faz cerca de 400 milhões de infecções anuais no mundo
O México é, a partir de hoje, a primeira nação a ter uma vacina contra a dengue. A autoridade regulatória mexicana (Cofepris) aprovou ontem a vacina tetravalente contra a doença, do laboratório Sanofi Pasteur. O antígeno será usado para prevenir a patologia causada pelos sorotipos do vírus da dengue 1, 2, 3 e 4 em pré-adolescentes, adolescentes e adultos, dos 9 aos 45 anos, que vivem em áreas endêmicas no México. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avalia desde março o pedido do laboratório de aprovação do imunizante. O lançamento da vacina, chamada Dengvaxia, custou 1,5 bilhão de euros (US$ 1,6 bilhão de dólares), mas ela pode gerar cerca de US$ 1 bilhão por ano, segundo o próprio laboratório. Autorizações foram pedidas em outros 20 países da Ásia e da América Latina. União Europeia e Estados Unidos devem ser os próximos.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a dengue faz cerca de 400 milhões de novas infecções anuais e, na sua forma mais severa, a dengue hemorrágica, ela mata 22 mil pessoas. Disseminada pelo mosquito Aedes aegypti – que também transmite a febre chikungunya e o vírus zika, que está ligado aos casos de microcefalia que dispararam no país no último mês, chegando a mais de 1,7 mil – a doença pode provocar febre paralisante, dor nos ossos e nas articulações. Nos últimos 50 anos, a dengue se tornou endêmica em mais de 100 países de regiões tropicais e subtropicais, favorecida pelo desenvolvimento urbano, mobilidade da população e o aquecimento global. Cerca de 4 bilhões de pessoas são potencialmente expostas à dengue na América Latina, África e região da Ásia-Pacífico.
Por se apresentar em quatro vírus diferentes, a dengue se mostrava um desafio para a indústria farmacêutica e centros de pesquisa. Para criar o imunizante, que levou 20 anos, a Sanofi Pasteur realizou 25 testes clínicos, com mais de 40 mil pessoas, em 15 países. Durante os ensaios, a vacina demonstrou ser eficaz em 66% dos indivíduos a partir dos 9 anos de idade. No caso de dengue hemorrágica, o percentual aumenta para 93%. Vale ressaltar que as regiões endêmicas do México participaram de todas as três fases do programa de desenvolvimento clínico da vacina.
Segundo a Sanofi Pasteur, a liberação da vacina no México é um marco histórico para a saúde pública, considerando que, até o momento, não havia tratamento específico para a dengue e nenhum outro método efetivo para a prevenção da doença epidêmica que tem aumentado de forma alarmante, causando alto impacto médico, social e econômico nos países onde os vírus circulam. “Quando a Sanofi Pasteur se propôs a desenvolver uma vacina contra a dengue há 20 anos com as comunidades científicas e de saúde pública locais e globais, foi com o objetivo de desenvolver uma vacina inovadora para enfrentar uma necessidade global de saúde pública”, disse o CEO da Sanofi, Olivier Brandicourt. “Hoje, com a primeira autorização de comercialização de nossa vacina, alcançamos nossa meta de fazer da dengue uma doença prevenível por vacinação. Este é um marco histórico para nossa empresa, para a comunidade de saúde pública mundial e, ainda mais importante, para a metade da população mundial que vive sob o risco de contrair dengue”, acrescentou.
Estudo apresentado no Encontro Anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, em outubro, nos Estados Unidos, mostrou que a estimativa global dos custos diretos e indiretos da dengue estão na casa dos US$ 9 bilhões por ano. Em 2007, os pesquisadores Joseph Egger e Paul Coleman mostraram que, embora a dengue afete pessoas de todas as idades e estilos de vida, a maioria dos casos da doença no mundo ocorre em segmentos sociais e de população com alta mobilidade, que incluem pré-adolescentes e adultos.
Na opinião do virologista Flávio Guimarães da Fonseca, pesquisador do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), a aprovação da vacina contra dengue no México é importante, pois é uma doença sem solução, sem remédio e sem controle sobre a população dos mosquitos. “Ela é muito importante sim e se mostrou suficientemente boa para ser adotada num primeiro momento. A vacina não atingiu, no entanto, os 80% de cobertura esperados. O que ela nos diz sobre a dengue é que não podemos descansar, pois cobriu, na fase III dos estudos clínicos em seres humanos, 66% da população, ou seja, desse montante, os vacinados estão protegidos, mas 34% ainda não estão. Por isso, vamos ter de continuar trabalhando para uma vacina com uma cobertura maior. A própria Sanofi vai investir nisso”, explica.
pesquisas ameaçadas Segundo o pesquisador da UFMG, se a vacina for aprovada no Brasil (a expectativa é que isso ocorra no ano que vem), ter uma situação em que mais de 50% da população esteja protegida é um cenário muito bom. “Principalmente agora, que temos outras doenças circulando e sendo transmitidas pelo Aedes aegypti. Isso nos dará fôlego para trabalhar com menos pressão”, indica Flávio. Ele trabalha no desenvolvimento de uma vacina contra a dengue, na UFMG, há quatro anos. “Diferentemente da vacina da Sanofi Pasteur que é uma vacina recombinante – mistura vacina da febre amarela com componentes da dengue -, o nosso trabalho usa a vacina da varíola com proteínas da dengue. Em testes com camundongos, mostramos há um ano e meio que o resultado era 100% positivo. Íamos começar a fazer o teste em macacos, mas o dinheiro acabou. Nosso ritmo de pesquisa é bem diferente, infelizmente. E acredito que os próximos dois anos serão difíceis para a ciência brasileira. Nosso convênio de financiamento com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) acabou de terminar e não temos nenhum centavo para dar continuidade aos trabalhos”, lamenta Flávio.
Fonte: O Estado de Minas
Fonte: www.ohoje.com
