Em audiência pública da Comissão Especial do PL 1013/2011, que trata da fabricação e venda de carros leves movidos a diesel no Brasil, o líder do Partido Verde e coordenador da Frente Ambientalista, deputado Sarney Filho (PV-MA), criticou os incentivos que o país deu nos últimos anos para o transporte individual e defendeu mais investimentos em mobilidade urbana.
A reunião ocorreu nesta quarta-feira (28), na Câmara dos Deputados, e teve como debatedores Mario Massagardi, presidente da Aliança Pró-Veículos Diesel (Aprove Diesel), formada por empresas do setor de autopeças e sistemistas de tecnologia; Luiz Moan, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea); e Antônio Megale, diretor de Assuntos Governamentais da Volkswagen do Brasil.
Atualmente, os carros leves movidos a diesel têm fabricação proibida no país. Desde 1976, só podem ser fabricados e vendidos veículos a diesel com carga transportável superior a uma tonelada. Segundo Massagardi, o diesel produz 25% a menos de dióxido de carbono (CO²) do que a gasolina e não há justificativa para a proibição.
Moan, por sua vez, afirmou que tais veículos são mais caros e a indústria automobilística brasileira, além de não ter investimentos nesta tecnologia, já investe no etanol, que também consome menos CO² que a gasolina. A Anfavea é contrária à liberação desses veículos no país. “Na Europa se usa o diesel principalmente para evitar a emissão do dióxido de carbono, mas aqui, no Brasil, já temos o etanol, que, além de ser renovável, emite muito menos CO² que o óleo diesel. Outra questão é a da disponibilidade do diesel. Na matriz energética do Brasil, hoje não tem”, disse.
O diretor da Volkswagen afirmou que, para as empresas do setor, a transformação para o motor a diesel significaria uma mudança radical nos rumos dos investimentos, que, nos últimos anos, estiveram voltados para o desenvolvimento de tecnologia nacional no etanol e nos carros modelo flex.
Durante o debate, Sarney Filho disse que o tema discutido na audiência está ultrapassado e criticou a opção do país de investir em transporte individual movido a energia fóssil. “Nós tivemos a isenção de IPI para montadoras durante vários anos, por exemplo, isso sem nenhuma exigência de contrapartida, apenas para baratear e dar acesso a esses veículos. Isso é bom por um lado, mas por outro lado é ruim. Não há hoje uma cidade com mais de 500 mil habitantes no Brasil que não tenha problema de mobilidade. Nós temos é que discutir o transporte de massa e investir nisso”, enfatizou. Quanto aos veículos leves, afirmou que o país já encontrou seu caminho com o etanol, o biocombustível.
O deputado lembrou que a emissão de gases do efeito estufa não ocorre apenas na queima do combustível, mas em toda a cadeia de produção dos veículos, e que, para ele, não tem sentido continuar investindo em combustível fóssil no momento em que o mundo precisa lidar com o grave problema das mudanças climáticas. Sarney Filho comentou que o projeto já foi rejeitado na Comissão de Meio Ambiente e que sua postura na comissão especial será a de mostrar que aquela discussão não é prioritária. “Nós, do Partido Verde, preferíamos estar discutindo metrô, transporte público e mobilidade urbana”, resumiu.
Megale ouviu questionamentos de vários parlamentares sobre a fraude no controle de emissões de alguns veículos da Volkswagen, inclusive no Brasil. Respondendo ao deputado Sarney Filho, afirmou que a empresa admite pagar eventuais multas com base na legislação ambiental brasileira. “É preciso que os dirigentes da empresa se exponham e assumas suas responsabilidades. A maior perda que a Volks sofreu foi a da sua credibilidade”, avaliou o líder verde.
À afirmação de Megale de que, mesmo sem o dispositivo que reduz as emissões durante a fiscalização, os veículos da empresa devem estar em conformidade com as normas nacionais, Sarney Filho foi categórico: “se mesmo sem o dispositivo os carros estiverem de acordo com nossa legislação ambiental, isso significa que nossa legislação ambiental está ultrapassada em relação aos outros países”.
Moan também foi questionado pelos deputados, negando que a Anfavea tenha participado de negociações fraudulentas sobre incentivos fiscais para favorecer empresas automotoras, incorporados em medidas provisórias aprovadas no Congresso. A Polícia Federal está investigando as negociações no escopo da Operação Zelotes, conforme vem sendo negociado pela imprensa.
Ressalvando a importância da indústria automobilística para o país, em especial na geração de empregos, Sarney Filho insistiu que as entidades devem agir sempre com o máximo de transparência para esclarecer os fatos.
Fonte: Comunicação Lid/PV
Foto: news.discovery.com
