Floresta abriga 80% das espécies brasileiras, mas avanço do desmatamento coloca três delas em risco de extinção.
O Brasil é dono da maior diversidade de primatas do planeta, mas o desmatamento já ameaça a sobrevivência de algumas espécies até mesmo na Amazônia. Três das seis espécies brasileiras em situação crítica, na lista das 35 com risco de extinção, vivem na Floresta Amazônica, em locais onde a supressão das matas não dá chance de vida aos animais. No entorno de Manaus, o sauim-de-coleira ( Saguinus bicolor) corre risco de desaparecer pela pressão do crescimento urbano. No extremo Leste do bioma, na divisa entre Pará e Maranhão, em pleno arco do desmatamento, as populações de macaco- de- cara- branca ( Cebus kaapori) e de cuxiú- preto ( Chiropotes satanas) têm sido reduzidas ano após ano.
– A única forma de garantir a sobrevivência das espécies a longo prazo é planejar a ocupação humana e agropecuária. Os dados de diminuição do desmatamento são ilusórios. Houve redução percentual, mas continuamos a destruir todo ano uma quantidade muito grande de mata – afirma o ecólogo Wilson Spironello, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ( Inpa).
A MAIOR DIVERSIDADE DO MUNDO
O Brasil tem 145 espécies e subespécies de primatas, à frente de Madagascar, que tem 110. Diferentemente do que ocorre na África, onde muitas espécies vivem em áreas abertas, nas Américas os macacos são arborícolas, ou seja, vivem nas árvores e dependem delas para viver. Também as florestas dependem deles. Os macacos se alimentam de frutos e dispersam suas sementes, participando ativamente da dinâmica florestal.
Dentre as espécies brasileiras, 35 estão em risco de extinção, conforme o diagnóstico sobre o estado de conservação dos primatas brasileiros, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade ( ICMBio). Na Mata Atlântica, reduzida a cerca de 7% de sua cobertura original e extremamente fragmentada, 25 espécies estão ameaçadas. A pior situação é a do bugio e a do mico- leão- da- cara-preta. No bioma Caatinga, a vida do guigó- da- caatinga está em perigo.
Na Amazônia estão 115 espécies e subespécies – o que corresponde a 80% do total registrado pelo país.
– Isso representa mais de 10% dos primatas do mundo. É alto o nosso grau de responsabilidade – diz Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros do ICMBio.
Spironello explica que o sauim-decoleira é o primata que sofre mais porque sua área de distribuição é restrita: ele vive em florestas de terra firme apenas nos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara. Com a expansão de Manaus e dos municípios vizinhos, as áreas de mata estão ficando cada vez mais fragmentadas.
A única reserva biológica do lugar é a Reserva Florestal Adolfo Ducke, de 100 quilômetros quadrados, criada em 1963. Jerusalinsky assinala que o Brasil já tem espécies em extinção numa área onde sequer se conhecem todas as espécies e subespécies existentes, pois elas não foram estudadas.
– Temos descoberto uma espécie nova por ano no bioma Amazônia – conta.
MADEIREIROS INVADEM TERRAS INDÍGENAS
Na divisa entre Pará e Maranhão, os macacos sobrevivem em terras indígenas e na Reserva Biológica Gurupi (Rebio Gurupi). Na prática, apenas as terras protegidas escaparam do desmatamento raso, aquele em que todas as árvores desaparecem para dar lugar a gado ou plantações. Mesmo assim, os indígenas enfrentam a ação contínua de madeireiros, que invadem suas terras para tirar árvores de valor e para caçar.
Jerusalinsky lembra que, além da destruição de seus habitats, os primatas se tornam mais suscetíveis a doenças que, para o ser humano, não são fatais, mas podem dizimar populações inteiras deles. Ele cita como exemplo uma doença comum entre os humanos, o herpes.
FLORA MAIS RICA NA CASA DOS MICOS
Existem cerca de 700,5 milhões de micos-leões-dourados no país – 3,2 mil na natureza. Os demais estão no verso das cédulas de R$ 20. Para aumentar o primeiro contingente, a Casa da Moeda promoverá, nas próximas semanas, o replantio de uma área degradada da reserva biológica da União, entre os municípios de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, na Região dos Lagos. Esta unidade e a vizinha de Poço das Antas abrigam, somadas, cerca de 2 mil símios da espécie ameaçada de extinção.
Superintendente do Departamento de Segurança do Trabalho e Meio Ambiente e Saúde Ocupacional da Casa da Moeda, Marcos Pereira admite que a escolha da reserva foi motivada pelo trabalho da unidade de conservação com o mico-leão-dourado.
– Queremos fazer uma ligação entre uma iniciativa ambiental e as cédulas que produzimos – explica. – Vamos plantar 200 mil mudas e ajudar o Rio a zerar sua emissão de gases-estufa.
Fonte: O Globo
Foto: planetofthemonkeys.com
