Hipócrates era um observador sagaz. Há cerca de 2,5 mil anos, o médico grego notou que o aumento de alguns surtos infecciosos acompanhavam a piora no humor de Aeolos e Zibelthiurdos, deuses dos ventos e das tempestades. Condições climáticas extremas, observou o clínico antigo, eram seguidas de mais casos de doenças gastrointestinais e do sistema nervoso, além da tuberculose. Desde então, o homem não conseguiu se proteger dos efeitos nocivos do clima sobre sua saúde. Pelo contrário, parece estar ainda mais vulnerável às oscilações da natureza. Análises mostram que, em todo o mundo, as mudanças climáticas deverão provocar 250 mil mortes entre 2030 e 2050.
Nos últimos 130 anos, o planeta ficou 0,85ºC mais quente. A previsão é de que o quadro se agrave, pois, na melhor das hipóteses, esse aumento deve alcançar perto dos 2ºC até 2100, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Embora o aquecimento global possa trazer benefícios isolados, como menos mortes durante o inverno em climas temperados, as desvantagens serão bem maiores.
Um novo estudo mostra que o Brasil não será exceção. A pesquisa, liderada por Chrystian Soares Mendes, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), projeta, ao longo deste século, um aumento de até 15% nos casos de leishmaniose no país. A explicação é simples. O aumento da temperatura e das chuvas deverá favorecer a proliferação do mosquito transmissor da doença – o que sugere que outros males vetoriais também devam apresentar crescimento.
Estimativas
Para chegar a essa conclusão, o pesquisador partiu de números do Ministério da Saúde segundo os quais, entre 1992 e 2002, a leishmaniose provocou, em média, 45.402 internações e 4.127 hospitalizações anuais. Em seguida, ele considerou o aumento de temperatura prevista em dois cenários traçados pelo IPCC.
O primeiro, identificado como A1B, projeta um aumento de 1,8ºC até meados deste século e de 2,8ºC no fim, além de um aumento das chuvas. Se esse quadro se confirmar, as internações pela doença no Brasil crescerão 9,28% até 2039 e 13,64% até 2099. No cenário A2, mais pessimista em relação ao controle do clima, o aumento projetado de temperatura deve ser de 3,4ºC até 2100. Isso acarretaria um aumento de 14,97% até aquele ano.
O Centro-Oeste é a única região do país em que se pode esperar uma redução na ocorrência da enfermidade. A porção central do Brasil deverá ter redução de 2% a 7%, com exceção de Mato Grosso do Sul, onde o aumento também pode beirar os 15%. A redução em Goiás poderá ser de 46% na melhor das hipóteses e de 27,2%, na pior. No Distrito Federal, espera-se redução de 0,1% nos dois cenários, devido a períodos mais extensos de estiagem.
“Os principais resultados encontrados sugerem que a proliferação da leishmaniose possui forte relação com a precipitação, isto é, quanto maior o número de meses com chuva, maior o número de internações da doença em meses subsequentes”, explicam Mendes e colegas no estudo. Em alguns casos, a seca muito prolongada reduz a atividade do mosquito transmissor, ou seja, seu tempo de vida.
Nos estados do Norte, o aumento poderá ser de 17% no cenário mais drástico, com maior vulnerabilidade no Pará e no Amazonas. Já no Nordeste, haverá aumento de 287 internações no cenário A2 e de 250, no A1B. Isso porque, nessa região, há uma concentração maior de meses com chuvas em faixas elevadas, de 50mm a 100mm. No Sudeste, o aumento previsto é de 26% nos dois cenários.
A região Sul, porém, será mais prejudicada com o aumento previsto de chuvas. Lá, os pesquisadores estimam um crescimento nas internações de até 228%. Serão, em média, 100 internações por ano a mais do que registrado atualmente, com Paraná abrigando 70% dos casos.
Outros fatores
Ulisses Confalonieri, do Grupo de Estudos Transdisciplinares de Educação em Saúde e Ambiente da Fiocruz de Belo Horizonte, explica que o país não deve sofrer tanto caso a variação de temperatura não ultrapasse os 2ºC. “Para nós, o elemento mais crítico é a chuva. Se não tem chuva, vetores como o Aedes aegypti se tornam inviáveis. Por isso, é importante pensar sempre em temperatura e chuva aliadas”, ressalva Confalonieri, que foi integrante do IPCC e estuda, há anos, o comprometimento da saúde pelas mudanças climáticas.
Fatores ligados ao aquecimento, como migrações de populações para regiões de clima mais ameno, também influenciam na circulação de doenças no país. Comunidades de regiões mais frias, em um cenário de mudanças climáticas, tendem a sofrer mais porque, ao contrário das acostumadas ao calor, não desenvolveram resiliência a temperaturas altas. Isso significa que, teoricamente, pessoas que vivem no Nordeste sofrerão menos. Porém, por não possuírem condições socioeconômicas favoráveis, tornam-se, novamente, as mais vulneráveis.
“Populações que têm deficiência nutricional por conta da seca prolongada são as mais expostas às infecções. É por conta dessa falta de qualidade na saúde e nas condições de vida que a epidemia de zika vírus é mais grave no Nordeste: além de ambientes favoráveis para a proliferação, as pessoas têm a saúde mais precária, especialmente nas regiões rurais”, acrescenta Confalonieri.
Em regiões como o Centro-Oeste, doenças transmitidas por vetores podem dar uma trégua por causa da seca. No entanto, é possível que os estados observem um aumento de males cardiorrespiratórios, especialmente nas regiões urbanas com muita poluição atmosférica. Áreas que carecem de transportes coletivos e que aguardam um futuro árido, como Brasília, têm urgência em repensar os sistemas de locomoção para reduzir a poluição do ar, alerta o especialista.
Para saber mais
Fraqueza e órgãos inchados
Transmitida pelo flebótomo, popularmente chamado de mosquito-palha, a leishmaniose afeta humanos, cães e animais silvestres. Em pessoas, ela demora até quatro meses para se manifestar e possui tratamento. Em animais, pode levar até 10 meses para apresentar os primeiros sintomas, mas não tem tratamento com boa eficácia, nem vacina.
Há basicamente dois tipos: a leishmaniose tegumentar americana – que provoca feridas indolores e elevadas na pele, podendo atingir mucosas – e a visceral, considerada a mais perigosa e difícil de ser identificada. Essa forma se apresenta com inchaço do baço e do fígado, tosse seca, febre, perda de peso, fraqueza e fezes com sangue.
Estima-se que cerca de 350 milhões de pessoas corram o risco de ser infectadas, sendo que 12 milhões já foram contaminadas e aproximadamente 2 milhões de novos casos ocorram a cada ano. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que quase 3 mil pessoas são contaminadas pela doença anualmente.
Palavra de especialista
Menos alimentos
“As mudanças climáticas vão, por exemplo, retardar o desenvolvimento econômico e diminuir a disponibilidade de alimentos em cerca de um terço. A redução na disponibilidade global de alimentos será de 3,2%, ocasionando queda de 4% no consumo de frutas e vegetais e 0,7% no consumo de carne vermelha. Essas alterações serão associadas a 529 mil mortes adicionais em 2050. Um estudo que Marco Springmann publicou na Lancet é um dos primeiros para avaliar o efeito das alterações na dieta em cenários de mudanças climáticas. A maioria das mortes relacionadas com o clima estão previstas para ocorrer no sul e no leste da Ásia. As alterações climáticas, contudo, terão alguns efeitos positivos, como uma redução na prevalência de sobrepeso e obesidade em alguns países, mas haverá também mais óbitos de pessoas que estão abaixo do peso.”
Alistair Woodward,
especialista do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da Universidade de Auckland (EUA)<
