Thelma Krug foi uma das responsáveis pelo monitoramento da Amazônia e pelo inventário de emissões.
A matemática Thelma Krug, de 64 anos, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi eleita ontem para ocupar uma das três vice-presidências do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). É a primeira vez que um brasileiro ocupa o segundo posto mais alto nos quadros do painel científico, ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), que produz relatórios de avaliação sobre as mudanças climáticas.
Thelma vai dividir o cargo com a americana Ko Barrett, da agência para oceanos e atmosfera dos EUA (Noaa), e com o ma-lês Youba Sokona, diretor de Desenvolvimento Sustentável do South Centre, na Suíça. Na terça-feira, o economista sul-coreano Hoesung Lee havia sido eleito presidente.
Ex-secretária nacional de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente (no governo Lula), Thelma foi uma das responsáveis pela implementação do sistema de monitoramento por satélite da Amazônia – o Prodes, que aponta a taxa oficial de desmatamento – e pelo primeiro inventário nacional de emissões de gases estufa.
Em entrevista ao Estado, a pesquisadora afirma que um dos maiores desafios que o painel científico tem daqui para frente é melhorar a produção de informações mais regionalizadas sobre as mudanças climáticas. “É fundamental que os formuladores de políticas sejam mais bem comunicados dos impactos e riscos potenciais, permitindo, assim, que possam tomar decisões. Isso depende de uma melhora dos modelos regionais, o que ainda é um desafio grande para a comunidade que trabalha com modelos climáticos. Há esperança de que esses modelos sejam aperfeiçoados no próximo relatório de avaliação do IPCC, que se inicia sob esse novo conselho”, disse.
A pesquisadora também ecoa uma das propostas do presidente Lee (mais infonnações no texto ao lado), de aumentar a participação de pesquisadores dos países em desenvolvimento no painel. “Há uma menção recorrente de que existe uma lacuna de dados e informações de países em desenvolvimento. Na minha opinião, esses dados existem em vários desses países, mas não são facilmente identificados”, afirma. “A identificação e o fortalecimento de redes existentes de pesquisa, particularmente regionais, podem ser úteis para ajudar a superar essa questão. Cada um dos três vice-presidentes poderia concentrar-se em duas regiões.”
Mais mulheres. Além de Thelma e Ko Barrett, outras duas mulheres foram escolhidas entre as seis vagas de co-presidência dos grupos de trabalho do IPCC na eleição que está sendo atualmente realizada na Croácia. Para a brasileira, essa foi a maior mudança em relação ao quadro anterior, que tinha em sua maioria homens.
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ENTREVISTA
Hoesung Lee, novo presidente do IPCC
Temos de atingir o pico de emissões em muito pouco tempo”
O economista sul-coreano Hoesung Lee, eleito na terça-feira presidente do IPCC, falou ontem ao Estado sobre os desafios do painel de cientistas pelos próximos anos.
• Quais são seus principais objetivos como presidente?
É importante que no novo ciclo de avaliação do IPCC nós alcancemos uma participação significativa de especialistas dos países em desenvolvimento. Isso porque o sucesso da estabilização do clima depende da participação desses países no esforço global de reduzir as emissões de gases de efeito estufa a fim de alcançar a meta de conter o aquecimento do planeta em 2°C.
• Como presidente do IPCC o senhor vai conduzir pelos próximos anos os trabalhos para a construção do sexto relatório de avaliação. Qual deve ser o foco?
Nós precisamos focar nas soluções daqui para frente, incluindo as soluções econômicas, para que sejam ao mesmo tempo eficientes e equitativas.
• Em dezembro, na Conferência do Clima da ONU, em Paris, o senhor vai se dirigir aos negociadores. Qual mensagem vai passar para eles?
Espero que os negociadores se baseiem nas descobertas científicas para alcançar um acordo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. No IPCC temos oferecido evidência muito clara e sólida de que, se não chegarmos ao pico das emissões globais daqui a muito pouco tempo e, então, reduzi-las drasticamente, podemos não conseguir atingir o objetivo de ficar nos 2°C.
Fonte: O Estado de São Paulo
Foto: pt.info-natura.com
