xavantes_reproducao

Foto: Reprodução

Pesquisadores brasileiros detectam alta incidência de obesidade, hipertensão, diabetes e outras complicações da síndrome metabólica em índios Xavante

Nas aldeias Xavante do nordeste e do sul do Mato Grosso, está cada vez mais comum encontrar habitantes com partes do corpo amputadas, catarata nos olhos e até mesmo cegos. Alguns morrem por infartos, jovens têm sofrido abortos e os mais velhos temem pelo futuro das comunidades indígenas. Os males que nos últimos 20 anos vitimizam milhares de índios são bem conhecidos entre as populações ocidentalizadas, nas quais prevalece o consumo de alimentos industrializados e o sedentarismo: diabetes tipo 2, obesidade e síndrome metabólica. De acordo com especialistas, trata-se de uma epidemia causada por mudanças tanto na dieta quanto no estilo de vida dos xavantes, combinadas a fatores genéticos.

Conhecidos pelos hábitos de seminomadismo e pela agricultura de subsistência, esses índios costumavam se alimentar de frutas, legumes plantados na própria aldeia, caça e pesca. Ao longo dos séculos, estabeleceram-se no Centro-Oeste, entre Goiás e Mato Grosso, o que, a depender da época do ano, lhes obrigava a fazer longas caminhadas para encontrar alimentos. Essas práticas, porém,  ganharam novos contornos, colocadondo em alerta profissionais de antropologia e saúde indígena.

“Para caçar ou para comprar comida no mercado da cidade, os xavantes não vão a pé, usam moto e carro. A carne da caça, que era assada fresca numa espécie de churrasqueira com lenha e brasa, agora é frita a óleo num fogão a gás e temperada com bastante sal”, explica ao Correio Amaury Lelis Dal Fabbro, médico e professor do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).

“Para caçar ou para comprar comida no mercado da cidade, os xavantes não vão a pé, usam moto  carro. A carne a caça, que era assada fresca uma espécie de churrasqueira com lenha e brasa, agora é frita a óleo num fogão a gás e temperada com bastante sal”

Amaury Lelis Dal Fabbro, médico e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP)

Dal Fabbro é um dos coordenadores do estudo que detectou a prevalência de síndrome metabólica em duas reservas Xavante: a de Sangradouro/Volta Grande e a de São Marcos. Foi analisada a saúde de 932 índios com 20 anos ou mais. Desses, 66,1% (616 indivíduos) foram diagnosticados com o problema. Entre as mulheres, a incidência foi ainda maior: 76,2%, contra 55,6% dos homens.

Segundo os cientistas, um dos motivos para essa diferença é o sedentarismo. “Na cultura Xavante, as mulheres são responsáveis pela colheita e pela manutenção das roças. Com o acesso às cestas básicas, essas atividades foram praticamente abandonadas”, observa o endocrinologista João Paulo Botelho Vieira-Filho, coautor da pesquisa, que foi divulgada, no mês passado, na revista Diabetology and Metabolics Syndrome.

Influência genética

Para o especialista, o que faz com que os índios sejam tão suscetíveis a problemas metabólicos é o gene ABCA1, encontrado apenas entre populações indígenas americanas. Vieira-Filho explica que o gene é responsável por baixos índices de HDL (o colesterol bom), pelo nível aumentado de triglicerídeos e pelo estoque de até 27% dos alimentos consumidos.

Aparentemente vilão da saúde, o ABCA1 salvou os indígenas em outras épocas. “Esses fatores eram compensados pelos exercícios, o gene favorecia as andanças. Os índios com essa mutação genética sobreviveram porque conseguiam estocar energia. Agora, com os hábitos de vida ocidental, o gene se tornou nocivo”, considera.

Mudança de hábitos

Semelhante ao que acontece com todas as populações que adotam o estilo de vida ocidental e sofrem as complicações da obesidade, da hipertensão, da síndrome metabólica e do diabetes, médicos e demais profissionais da saúde apostam na reeducação alimentar dos xavantes e na valorização da prática de atividade física para a prevenção. Quanto aos diagnosticados com as doenças, o desafio está nas barreiras culturais, pois alguns desses índios respondem mal aos comprimidos e outros se recusam a aplicar insulina, preferindo remédios extraídos da natureza. “Eles estão passando por uma transformação social. Antes, tinham problemas de acidentes com animais e infecções. Agora, também lidam com doenças crônicas. Temos que cuidar deles como cuidamos dos nossos pacientes não indígenas”, enfatiza Amaury Lelis Dal Fabbro.

João Paulo Botelho Vieira-Filho acredita que é possível convencer os índios a abandonarem a dieta ocidental e a resgatarem costumes tradicionais. “Estão pagando um preço muito alto. Já percebemos algumas mudanças, como roças sendo retomadas, o refrigerante sendo substituído pelo tereré (bebida baseada na erva-mate), grupos de homens e mulheres jogando futebol e vôlei”, diz o endocrinologista.

Principal autora do estudo, Luana Soares, nutricionista da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), percebe a alternativa de retomar práticas antigas e saudáveis da cultura Xavante como um processo bastante complexo. “As mudanças nos hábitos alimentares e na prática de atividade física que ocorreram entre os xavantes foram consequência de uma série de fatores,  como mudanças socioeconômicas, culturais e ambientais; contato com a sociedade não índia; restrição territorial e esgotamento dos recursos naturais”, justifica. Segundo a pesquisadora, há ainda um desconhecimento nas aldeias sobre as novas ameças. “Muitos dos xavantes ainda não têm conhecimento da dimensão do problema e dos riscos que esse perfil representa para a saúde deles”.

Combinação de doenças

Caracterizada por condições relacionadas à resistência insulínica. Segundo o Consenso Brasileiro sobre Síndrome Metabólica, ela ocorre na presença de ao menos três dos seguintes distúrbios: obesidade abdominal, hipertensão arterial, diabetes, níveis baixos de HDL (bom colesterol), intolerância à glicose e níveis altos de triglicerídeos.

Palavra de especialista

Apoio esquecido

“Os xavantes ainda são, infelizmente, uma janela de um cenário ruim para os índios. Quanto mais aprendemos com eles, mais nos assustamos. Há dificuldades inerentes àquela região: política, discriminação, ódio racial. Tudo isso impacta na saúde deles, inclusive a psicológica. Estamos tentando promover o resgate de hábitos tradicionais, ensinamos a preparar os alimentos de forma saudável, os mais velhos fazem expedições de caça com os jovens. É preciso tratá-los em pé de igualdade, dar atenção a eles como damos a outras populações. Sabemos tratar e prevenir doenças na população brasileira não indígena, mas nos esquecemos deles, que têm uma dupla carga de doenças: além das infecciosas, agora as da modernidade.”

Carlos Coimbra, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em saúde Xavante, especialista em antropologia médica pela Indiana University

Estímulo ao arroz

Pioneiro no estudo da saúde dos índios brasileiros, o endocrinologista João Paulo Botelho Vieira-Filho começou a se dedicar aos xavantes do nordeste do Mato Grosso no fim da década de 1970. Ele lembra que, na década de 1980, a Fundação Nacional do Índio (Funai) estimulou o cultivo de arroz nas aldeias por meio do Projeto Xavante, que incluía a mecanização em grande escala dessa plantação para inserir os índios na economia regional agrícola. O projeto foi abandonado pouco tempo depois devido a conflitos entre índios e ruralistas.

De acordo com o endocrinologista, esse foi o primeiro fator de desequilíbrio da dieta tradicional dessas comunidades, que passaram a consumir muito arroz. Em seguida, Vieira-Filho ressalta a distribuição das cestas básicas, composta por itens como açúcar, biscoitos recheados, óleo vegetal e goiabada. Em meados da década de 1990, o médico detectou, pela primeira vez, alterações nos níveis de açúcar no sangue dos xavantes: cinco índios de Sangradouro e seis de São Marcos foram diagnosticados com diabetes. “Desde então, diversas vezes pedi aos órgãos responsáveis que trocassem pelo menos o açúcar por farinha de mandioca ou de milho, que faziam parte da dieta tradicional Xavante e são menos nocivos a eles. Nunca me atenderam”, lamenta o endocrinologista.

Outras comunidades

A incidência de doenças crônicas relacionadas a mudanças no estilo de vida e hábitos alimentares não se encontra apenas entre os povos xavantes. De acordo com Vieira-Filho, foram diagnosticados com diabetes 17 índios xikrins, localizados no Pará. Luana Soares também destaca que não existem muitos estudos sobre a prevalência de síndrome metabólica e de doenças relacionadas entre as populações indígenas brasileiras. “A prevalência que mais se assemelha à encontrada entre os xavantes foi verificada entre os caingangues e os guaranis, no Rio Grande do Sul (65,3%)”, avalia a nutricionista, que pondera em seguida: “As comparações são difíceis porque existem diferenças étnicas, culturais e de estilo de vida bastante expressivas, mas é indiscutível que, entre os xavantes, a prevalência é muito elevada”.

Fonte: Correio Braziliense