Caxias do Sul – Caroline Canzan e Elenice Pertile, alunas de Biomedicina na Faculdade da Serra Gaúcha (FSG), conhecem bem a rotina do pequeno agricultor.
Vindas de Vila Flores e Nova Roma do Sul, onde as famílias cultivam uva, sabem o quanto os trabalhadores estão expostos à ação de Agrotóxicos.
O contato com essa realidade inspirou as universitárias a participarem de um projeto pioneiro na Serra. Com colegas da Biomedicina e do curso de Educação Física, elas pesquisam o grau de intoxicação entre agricultores.
O trabalho, que começou em uma cidade, será estendido a 22 municípios, abrangendo 2 mil pessoas até o final do ano.
De acordo com a professora Julia Poeta, que coordena a iniciativa junto com a professora Caroline Pieta Dias, a pesquisa se iniciou por Vila Flores, com 111 agricultores.
– Como eu trabalho no postinho, pedimos ajuda aos agentes de saúde para divulgar o projeto na comunidade. Achamos que não apareceria ninguém para fazer os testes. Mas no dia apareceu um montão de gente – recorda Elenice.
A primeira coleta das amostras de sangue e urina na zona rural de Vila Flores aconteceu em outubro do ano passado. Conforme Julia Poeta, os acadêmicos analisaram o perfil hepático, renal, hematológico e toxicológicos das amostras.
– Eles se mostraram muito receptivos e gratos pelo nosso interesse na saúde deles, se sentiram valorizados _ afirmou a acadêmica Zuleide Ribeiro.
A partir de 2014, o grupo formado por Elenice, Zuleide, Caroline e os colegas Anderson Bordin, Mario Ivan Matias e Jeana Ghidorsi aprofundou o trabalho, pedindo apoio a sindicatos rurais. Até agora foram visitados Garibaldi, Protásio Alves, Salvador do Sul, Antônio Prado e Veranópolis, Vila Flores e Nova Roma do Sul. Em cada etapa, são atendidas cerca de 100 pessoas.
Além dos exames de sangue e urina, os campesinos são submetidos a espirometria para medir a capacidade pulmonar. Também são feitas aferição de peso e de altura, e medição de circunferência abdominal.
Os primeiros resultados não indicaram contaminação aguda dos agricultores, mas as análises ainda não foram concluídas.
612 casos no Estado em em 2013
A médica toxicologista Isabela Lucchese Gavioli, coordenadora clínica do Centro de Informações Toxicológicas do Estado (CIT/RS), confirma que a grande maioria dos casos de intoxicação por agrotóxicos ocorre durante o trabalho.
No ano passado, conforme o CIT/RS, foram atendidos 612 casos envolvendo esses insumos agrícolas.
– A dinâmica é bem definida. O agricultor não tem vínculo trabalhista com a indústria que vai comprar a sua produção e acaba se sujeitando às piores condições de trabalho para conseguir uma produção maior. Aí entram os casos de consumo de Agrotóxicos proibidos, contrabandeados pelas fronteiras, e de falta de uso dos equipamentos de proteção individual. Eles acham quente, desconfortável, e não têm uma chefia que exija deles a utilização durante a aplicação na lavoura. Então, eles relaxam mesmo – explica Isabela.
Conforme a médica, muitos casos não são notificados ao centro porque os agricultores não costumam procurar ajuda por medo de serem considerados inaptos para o trabalho ou porque a intoxicação ainda não se tornou grave.
– Eles só vão ao hospital quando estão morrendo mesmo. A intoxicação crônica costuma passar despercebida. Muitos nem sabem que podem estar contaminados, porque apresentam sintomas inespecíficos que passam por uma gripe ou intoxicação alimentar, por exemplo – diz a médica.
Nos últimos 10 anos, conforme Isabela, o número de casos tem se mantido constante, percebendo uma leve queda nos últimos cinco anos.
Apesar de a esmagadora maioria dos óbitos por contato com Agrotóxicos ser intencional (suicídios), a especialista afirma que o contato prolongado com os Agrotóxicos durante o trabalho na lavoura também pode levar à morte. Além disso, os casos de intoxicação crônica podem provocar neuropatias (perda de sensibilidade nos nervos de braços e pernas), sequelas psicológicas (quadros depressivos e paranoides, inclusive com ideação suicida), indução de tumores (há estudos que indicam que o sulfato de cobre, usado nos parreirais para evitar doenças fúngicas, está relacionado a casos de câncer de faringe) e disrupção endógena (quando a intoxicação atrapalha a produção hormonal).
Fonte: Eliane de Brum/ Jornal O Pioneiro/RS
Foto: noticias.r7.com
