O Livro Vermelho da Flora do Brasil, publicação do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro por meio de seu Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora/JBRJ), foi lançado na terça-feira, 3 de dezembro de 2013. O livro apresenta a avaliação científica de 4.617 espécies da flora brasileira já incluídas em listas oficiais de espécies ameaçadas, e conclui que, destas, 2.118 estão ameaçadas de extinção.
A publicação, que teve a colaboração de cerca de 200 especialistas brasileiros e estrangeiros, representa uma contribuição da comunidade científica para a atualização da “Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção”, que está a cargo do Ministério do Meio Ambiente.
O Livro Vermelho tem como um de seus objetivos municiar os tomadores de decisão com informações científicas, para que possam estabelecer prioridades de ação para a conservação de plantas. Também será útil para direcionar pesquisas científicas que possam preencher lacunas de conhecimento sobre determinados grupos taxonômicos.
A obra está estruturada em três partes. A primeira reúne capítulos que contextualizam a importância das avaliações de risco de extinção para a conservação de plantas no Brasil e no mundo, e apresenta as metodologias de trabalho e os principais resultados alcançados.
A segunda parte é composta por capítulos sobre cada uma das famílias botânicas avaliadas. Cada capítulo apresenta um texto introdutório sobre a família e reúne o resultado das avaliações nacionais de risco de extinção de cada espécie apontada como ameaçada de extinção.
A terceira parte do livro reúne material que esclarece aspectos técnicos e facilita o entendimento do leitor sobre a obra. Estão incluídos nesse capítulo o “Sistema de categorias e critérios de risco de extinção” adotado para as avaliações, bem como lista de ameaças, ações de conservação, tabelas de classificação de hábitats e índice remissivo.
Para a classificação do nível de ameaça, a equipe do CNCFlora utilizou o sistema da “Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza” (UICN) – método mais rigoroso que os anteriormente usados no país. Esse sistema permite que as informações sobre a flora brasileira sejam comparadas às de outras regiões do mundo e incluídas em análises globais de espécies ameaçadas.
O Livro Vermelho da Flora do Brasil é a primeira fase de um trabalho muito mais extenso, que tem como meta, até 2020, avaliar o risco de extinção de todas as espécies conhecidas de plantas brasileiras. Assim, a versão impressa do livro será atualizada a cada cinco anos, enquanto a versão online, a ser disponibilizada no sítio eletrônico do CNCFlora/JBRJ, terá atualizações anuais.
“É um privilégio levar à comunidade científica, aos gestores de biodiversidade, tomadores de decisão públicos e privados, especialistas e público interessado tão importante trabalho e, desde já, como presidente da instituição que o produziu, agradecer todos os esforços e a colaboração recebidos na sua consecução. Trata-se de um trabalho colaborativo, de grande monta e que mostra a maturidade da nossa comunidade científica”, afirma Samyra Crespo, presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O próprio Jardim Botânico têm em sua coleção espécies apontadas pelo livro como ameaçadas, como pau-brasil, mogno, palmito-jussara e várias espécies de bromélias e orquídeas.
Mapa do risco de extinção
De um total de 4.617 espécies avaliadas, 2.118 (45,9%) foram classificadas como ameaçadas. Elas se encontram nas categorias Vulnerável (VU), Em Perigo (EN), e Criticamente em Perigo (CR). As restantes entraram nas categorias Menos Preocupante (LC), Deficiente de Dados (DD) e Quase Ameaçada (NT).
O Livro Vermelho da Flora do Brasil revela que, do ponto de vista espacial, a maioria das espécies ameaçadas ocorre nos Estados das Regiões Sudeste e Sul. Dentre os estados, Minas Gerais tem a maior quantidade de espécies em todas as três categorias de risco de extinção (VU, EN e CR ). Na sequência, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia encabeçam a lista da flora em risco de extinção.
Mata Atlântica e Cerrado são os dois biomas em que se verificou maior número de espécies ameaçadas, seguidos da Caatinga e dos Pampas. A Amazônia ocupa o quinto lugar do ranking, o que pode ser explicado pela vasta rede de áreas protegidas (38% de seu território), pelas várias regiões de difícil acesso e pelas lacunas de informação sobre suas espécies.
Quanto às espécies avaliadas, o grupo das Pteridófitas (que inclui samambaias, avencas e xaxins, por exemplo) é o mais ameaçado, enquanto o das Briófitas (musgos, entre outros) é proporcionalmente o menos ameaçado. O estudo apontou ainda que a família das bromélias (Bromeliaceae) apresenta o maior número de espécies consideradas “Criticamente em perigo” (CR), seguida das famílias Orchidaceae (orquídeas) e Asteraceae (de que fazem parte, por exemplo, girassóis e margaridas).
A família Asteraceae abriga a maior quantidade de espécies consideradas “Em perigo” (EN), seguida de Bromeliaceae e Orchidaceae. Esta última é também a família com o maior número de espécies consideradas “Vulneráveis” (VU), seguida de Asteraceae e Fabaceae (plantas que dão vagens). Em números absolutos, o gênero Begonia (Begoniaceae) é o que tem mais espécies ameaçadas, no total de 36. Em segundo lugar vem o gênero de bromélias Vriesea, com 35, e o gênero Xyris (Xyridaceae), com 27 espécies ameaçadas.
Principais ameaças
O Livro Vermelho contabilizou 5.642 ameaças incidentes sobre a flora brasileira. Dentre elas, 3.400 (60,2%) afetam espécies consideradas em risco de extinção. A perda de hábitat e a degradação são responsáveis por 87,35% (2.970) destas ameaças. A agricultura é a causa primária de perda de hábitat e degradação (36,1%). Infraestrutura e planos de desenvolvimento (23,5%), bem como o uso de recursos naturais (22,3%), também contribuem de forma significativa com esse processo. O fogo causado por pessoas (11%) é igualmente uma fonte de grande preocupação.
Os pesquisadores concluíram que as espécies ameaçadas frequentemente se concentram em áreas específicas, onde os altos níveis de endemismo coincidem com altos níveis de risco, sobretudo impactos do uso da terra. Muitas espécies com hábitats e áreas de distribuição similares enfrentam, portanto, ameaças similares.
O uso sustentável da diversidade de plantas em países megadiversos e em desenvolvimento tem potencial para assumir um papel importante no desenvolvimento econômico. Para tanto, crescimento econômico e conservação precisam ter suas metas alinhadas. E as ações de conservação não devem ser vistas como obstáculos ao progresso, mas como a possibilidade de geração de riqueza por meios sustentáveis, ??e sem prejuízo ao potencial de prestação de serviços existente nos ecossistemas e nos recursos naturais.
Publicação científica reúne avaliações sobre o risco de extinção de espécies de plantas no país:
– Livro aponta 2.118 espécies ameaçadas da flora nacional
– Mata Atlântica e Cerrado são os biomas com a maior quantidade de espécies ameaçadas
– Bromeliaceae, Orchidaceae e Asteraceae são as famílias em maior risco
– Perda de hábitat e degradação são as principais ameaças à flora nacional
– O estudo contribuirá para a atualização da “Lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção”
– Ferramentas tecnológicas, disponibilizadas em um portal online integrado, viabilizaram a criação de um acervo único sobre as espécies em risco de extinção
Fonte e fotos: CNCFlora – Centro Nacional de Conservação da Flora / Jardim Botânico do Rio de Janeiro

