Pesquisa internacional, que contou com a participação de especialistas brasileiros, comprova a importância dos insetos polinizadores para o campo. Quanto maior a quantidade e a variedade desses animais, mais eficiente se torna a produção agrícola
Apesar do pouco tamanho, animais como abelhas, borboletas e vespas realizam um trabalho de enorme importância. São eles os responsáveis pela polinização, o transporte de pólen entre uma planta e outra, necessário para que elas se reproduzam. Por isso, já era forte a crença de pesquisadores sobre o papel fundamental dos polinizadores para a produção agrícola, algo que um estudo publicado hoje na revista Science vem confirmar. Segundo a pesquisa, que contou com pesquisadores de vários países, inclusive da Universidade de Brasília (UnB), uma maior quantidade e diversidade de insetos em áreas de plantio aumentam significativamente a produtividade.
O estudo se concentrou em países que sofrem com a ameaça da insegurança alimentar e foi baseado em análises anteriores segundo as quais a polinização interfere na produção de mais de 70% dos produtos vegetais. “Vários trabalhos mostram que a intensificação agrícola, que recorre ao uso de insumos químicos, ao desmatamento de áreas de vegetação nativa e à remoção de margens ao longo dos campos que possam servir de refúgio a fauna e flora, tem levado ao declínio acentuado de polinizadores”, conta ao Correio Luísa Carvalheiro, coautora do artigo e pesquisadora do Departamento de Ecologia da UnB.
Carvalheiro explica, contudo, que nesses trabalhos havia poucos dados sobre a relação direta entre a polinização e a eficiência agrícola, principalmente em regiões que precisam intensificar a produção de alimentos. “Havia uma grande falta de conhecimento sobre o impacto da perda de polinizadores em regiões do mundo onde ainda existem muitas populações vivendo em condições de insegurança alimentar, em particular, sobre efeitos para pequenos agricultores”, destaca a especialista.
Apoiados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os cientistas iniciaram o estudo em 2009, focando plantações de pequenos e grandes agricultores na Ásia, na África e na América Latina, em um amplo trabalho conjunto de coleta de dados. No Brasil, o projeto contou com o envolvimento do Ministério do Meio Ambiente e de universidades de diferentes estados.
Segundo Luísa Carvalheiro, o trabalho apontou que, enquanto as plantações de menor porte aumentam a produção quando o número de polinizadores cresce, as grandes propriedades são beneficiadas se há maior diversidade desses animais na área. “Em campos agrícolas pequenos, um aumento da densidade de polinizadores leva a um aumento constante (linear) da produtividade, mas em grandes propriedades (campos com mais de 2 hectares), tais benefícios apenas foram detectados quando a diversidade era elevada. Ou seja, uma única espécie de abelha não faz o trabalho sozinha”, destacou a pesquisadora da UnB, que analisou os dados finais com o coordenador internacional do estudo, Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro (UNRN), na Argentina.
Novas estratégias
As novas informações podem auxiliar os produtores agrícolas a adotarem formas mais eficientes de cultivo, baseadas em práticas de manejo que aumentem a diversidade de polinizadores nas plantações, o que passa pela busca de alternativa aos pesticidas, por exemplo. “Esses produtos podem atingir os insetos. Para evitar isso, seria necessário pensar em métodos alternativos, como utilizar esses inseticidas apenas em períodos fora das visitas das abelhas, já que sabemos que o pico de visitação delas é entre as 10h e as 15h”, analisa Carmen Pires, coautora do estudo e pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia de Brasília.
Na avaliação de Pires, mudanças desse tipo podem resultar em economia para os produtores. “Principalmente no Brasil, onde há muitos pequenos produtores sem recursos para comprar produtos como fertilizantes, pois são caríssimos. Se eles trabalharem com a biodiversidade, podem aumentar a produção sem a necessidade desses recursos”, destaca.
“Vários estudos recentes mostram que a diversidade e o número de polinizadores em áreas agrícolas estão em declínio. Isso representa uma séria ameaça para a produtividade agrícola”
Luísa Carvalheiro, pesquisadora do Departamento de Ecologia da UnB
Vera Lúcia Fonseca, especialista em polinizadores e pesquisadora do Instituto Tecnológico de Belém (ITB), também acredita que a pesquisa publicada na Science pode facilitar o trabalho de agricultores de diferentes perfis. “Esse é um estudo muito amplo, que explorou diversas regiões com características distintas, e isso gera dados que podem fornecer auxílio a produtores do mundo inteiro”, acredita. “A polinização é um assunto muito importante, que tem sido cada vez mais estudado e que merece a atenção dos pesquisadores”, complementa.
Carvalheiro, da UnB, concorda. “Vários estudos mostram que a diversidade e o número de polinizadores em áreas agrícolas estão em declínio. Isso representa uma séria ameaça para a produtividade. Seria importante haver mais estudos de caráter global, que avaliassem de forma sistematizada os benefícios das diferentes práticas de manejo de polinizadores numa grande diversidade de espécies agrícolas”, opina.
Sensibilidade das plantas carnívoras
Estudo publicado na revista Current Biology revela um curioso sistema utilizado por plantas carnívoras para reconhecer e capturar alimento. Segundo os autores do trabalho, esses vegetais contam com uma espécie de sensor que ajuda a planta a contar quantas vezes está sendo tocada. A partir de um determinado número de contatos, o que indica a presença de um inseto, a planta se fecha, iniciando o banquete.
Os insetos são essenciais para a sobrevivência de plantas carnívoras, que costumam viver em solos pobres de nutrientes. Os especialistas sabiam que os pequenos bichos são atraídos para as predadoras pelo cheiro frutado que elas exalam, mas resolveram investigar melhor o mecanismo de reconhecimento do alimento. Para isso, a equipe da Universidade Wurzburgo, na Alemanha, estudaram a Dionaea muscipula, popularmente conhecida como dioneia.
Por meio de estímulos elétricos, eles descobriram que a armadilha das plantas funciona também com a ajuda de uma sensibilidade existente nas folhas, que, ao captar toques repetidos e constantes, fecha suas garras. “A Dionaea muscipula pode contar quantas vezes ela foi tocada por um inseto em seu órgão de captura, a fim de interceptar e consumir a presa animal”, afirma, em um comunicado à imprensa, Rainer Hedrich, um dos autores do estudo. O experimento também mostrou que um único contato com uma das garras das plantas é suficiente para gerar uma resposta, de forma automática.
Outra descoberta dos cientistas está relacionada ao processo seguinte à captura. Segundo os autores, após o inseto ser envolvido na armadilha, a planta produz enzimas digestivas e transportadoras dos nutrientes retirados da presa. Elas permitem que a planta consiga dimensionar a produção de substâncias necessárias para digerir a refeição. “Isso possibilita que a armadilha equilibre o benefício da caça”, destaca Hedrich. O próximo passo dos cientistas será o sequenciamento do genoma da planta carnívora para encontrar mais pistas sobre o comportamento da espécie.
Fonte: Correio Braziliense
Foto: www.mundobiologia.com
