Análises genéticas se tornam uma poderosa ferramenta ambiental no Brasil e em toda a América Latina. Técnicas têm ajudado na proteção de espécies como o boto-cor-de-rosa e a onça-pintada.
Muitos ignoram, mas a análise de DNA se tornou, nos últimos anos, uma ferramenta crucial para a preservação do meio ambiente. É por meio da avançada técnica, por exemplo, que se comprova o tráfico de animais silvestres, se delimita a fronteira de áreas a serem protegidas ou se flagra a venda de bens alimentícios proibidos. Os muitos usos dessa tecnologia na defesa da natureza são tema de 15 artigos publicados em edição especial da revista especializada Journal of Heredity. As pesquisas apresentadas revelam metodologias que têm ajudado a proteger espécies vegetais e animais que correm risco de extinção na América Latina, incluindo o Brasil.
O uso da genética para esses fins aumentou consideravelmente nos últimos anos na região, que apresenta uma imensa biodiversidade extremamente vulnerável à ação do homem. “A América Latina abriga uma biodiversidade acima do padrão mundial e também tem se desenvolvido como nunca, o que torna essa região particularmente importante em ternos de conservação”, diz, por meio de um comunicado, Kathryn Rodriguez-Clark, uma das responsáveis pelas publicações e pesquisadora do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas.
Em um dos artigos que compõem a edição especial, pesquisadores da Região Sul do país mostram o uso da genética para avaliar a situação da onça-pintada no Pantanal. “Quando estudamos espécies, uma das perguntas levantadas é o quanto elas estão interligadas geneticamente. A variabilidade cai quando os animais se isolam, geralmente pela ação do homem. E perder essa característica não é bom, pois ela permite à população se adaptar a mudanças como o aquecimento global”, explica ao Correio Eduardo Eizirik, professor da Faculdade de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e coautor do trabalho.
No estudo, a equipe brasileira analisou amostras de DNA de 57 onças-pintadas em quatro áreas do Pantanal e as comparou com dados obtidos na Mata Atlântica. “Descobrimos que a Mata Atlântica tem algumas áreas em que a variabilidade genética está mais baixa do que a do Pantanal, que foi considerada normal. Isso reforça a questão de que a fragmentação do ambiente, causada pela ação do homem, foi a responsável por isso. Mostramos que existia uma ligação entre as duas regiões no passado, que seria a situação ideal para hoje também. Mas agora não é assim, não existe mais essa continuidade”, destaca Eizirik.
Com os dados obtidos, é possível pensar em estratégias de preservação para as regiões que mais sofrem com a pouca variabilidade. “Várias ONGs tentam reconectar as regiões. Fazer isso é possível, além de altamente desejável. Com essa delimitação obtida pela pesquisa, podemos aumentar a fiscalização dessa área específica, tentar recuperar a mata, realizar ações que ajudem a mudar o cenário atual”, completa o autor.
Segurança
Em outro trabalho, especialistas de São Paulo revelam como dois testes de DNA, criados por eles, impediram que 58 ovos de psitacídeos (família de araras e papagaios) deixassem o Brasil ilegalmente. Um traficante internacional tentou embarcar em um aeroporto do país afirmando que se tratava de ovos de codorna. Os autores do trabalho destacam que a técnica utilizada pode ajudar ainda mais a área de fiscalização.
“Com esses dados, a polícia pode estabelecer um cenário mais preciso sobre casos de tráfico ilegal. Esse tipo de análise pode ser adotado pelas autoridades de proteção da vida selvagem para detectar espécies raras afetadas pelo tráfico ou para controle de fronteira e monitoramento de dispersão de espécies invasoras”, informa em nota Cristina Miyaki, pesquisadora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).
Outra tecnologia também nacional ajudou a diminuir a caça do boto-cor-de-rosa, espécie rara na Amazônia brasileira. Em 2008, fiscais desconfiaram de um novo peixe que passou a ser vendido no Norte do país com o nome de douradinha. Amostras foram colhidas e enviadas para análise na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo mostrou que o produto comercializado era mesmo o boto, com outro nome para despistar a fiscalização.
Para Bernardo Machado, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalhos assim podem contribuir muito para a preservação da biodiversidade. “Quando você determina uma marca digital genômica, você tem um mecanismo que torna muito mais fácil identificar espécies raras. Isso auxilia o trabalho dos órgãos que se dedicam à fiscalização, impedindo que o comércio ilegal continue contribuindo para a extinção”, avalia o especialista, que não participou dos estudos.
Machado ressalta que essas análises têm ficado cada vez mais baratas e eficazes, o que deve ajudar muito na preservação ambiental de regiões como a América Latina. “A região neotropical, que engloba todo o continente da América do Sul, a América Central e vai até o México, tem grande biodiversidade e engloba países com menos dinheiro. Usar recursos simples, mas eficazes, pode ajudar a garantir a segurança desses locais sem exigir altos custos”, completa.
Fonte: Correio Braziliense
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