A desmontagem de um orquidário de pesquisas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Brasília, pode prejudicar 15 anos de pesquisas desenvolvidas na área, segundo a engenheira florestal da autarquia, Lou Menezes. O local contava com cerca de 3 mil orquídeas de aproximadamente 2,5 mil tipos diferentes.
O ICMBio informou ao G1 que a estrutura da instalação estava comprometida e, por isso, resolveu suspender as atividades e desmontá-la “face ao iminente risco de colapso”.
Há cerca de um mês, o orquidário de 400 metros quadrados localizado na sede do Ibama, na Asa Norte, começou a ser desmontado e teve o teto retirado sem aviso prévio, segundo Lou. “Está uma ruína. Comprometeu toda a coleção. O sol queimou muitas plantas. É uma perda irreparável. O que me alenta são as publicações que consegui fazer com trabalhos desses anos todos.”
As pesquisas integram o projeto Orquídeas do Brasil, iniciado em 1985. O orquidário tem como destaques orquídeas típicas do Cerrado, como a Catteya Walkerina, muito apreciada no exterior, a Bilior e a Cyrtopodium. No orquidário são realizadas a reprodução de plantas nativas extintas, reintrodução de mudas na natureza e a hibridação de espécies.
“Algumas quase extintas a gente trata, cuida e depois leva para o meio do Cerrado. Tem outras plantas criadas artificialmente lá. Por exemplo, a Cyrtopodium foi cruzada no laboratório com a maior do mundo, que é malaia, e criou-se uma nova espécie.”
Espaço – Apesar de o orquidário se localizar no terreno do Ibama, o espaço faz parte do ICMBio desde a separação dos institutos, em 2007.
O ICMBio informou ao G1 que, apesar das queixas de funcionários, o desmonte do orquidário está sendo feito com cuidado e sob orientação de servidores para evitar perdas de espécies.
O ICMBio também disse que, após um diagnóstico, verificou que “o local atual não é adequado para esta finalidade [orquidário] por estar dentro das dependências administrativas do Ibama”. O instituto falou ainda que estuda onde implantar um novo orquidário, mas não deu prazo para obras. A medida faz parte de um acordo de cooperação técnica firmado entre a autarquia, o Ibama e o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A engenheira florestal disse que pede uma reforma há cinco anos, mas nunca foi atendida. “O projeto até poderia ir para outro lugar, mas o prédio é um patrimônio. É um crime patrimonial o que estão fazendo. Agora está parado e não sabemos o que vai acontecer. Não tem como transplantar. No Jardim Botânico daqui já tem um orquidário que não funciona nem tem alguém especializado para isso. É um desastre, está tudo falido.”
Alternativa – Para contornar a situação, Lou disse ter colocado mil plantas em uma estufa pequena ao lado do orquidário, levou algumas para cuidar em casa e entregou outras para grandes colecionadores de orquídeas de Brasília. “Foi uma espécie de S.O.S. Não dou conta de guardar e preservar tudo, então eles estão cuidando delas para mim enquanto não é resolvido. Foi o jeito que encontrei.”
O ICMBio disse desconhecer essa transferência, mas falou que refuta o procedimento. A autarquia também informou que as plantas excedentes que estavam no orquidário são mudas “particulares da coleção da responsável pelo local”.
Fonte: G1
Foto: Lou Menezes/Arquivo pessoal
