Além de garantir até 50% dos rendimentos do mês por meio do extrativismo, Gualdino e seus companheiros entendem a necessidade de preservar o bioma. “Não somos extrativistas só pelo dinheiro, mas também pela preservação da natureza. Antes era um descontrole enorme. Agora o desmatamento está sob controle na região”.
Ele conta que a consciência ambiental, antes exceção entre os moradores, agora faz parte do dia a dia da cidade. “Era comum a gente colher uma vez o baru e depois derrubar a árvore para fazer cerca. Com os ensinamentos do Cedac a gente percebeu que desmatar era jogar dinheiro no lixo”, conta o conselheiro e diretor financeiro da Coopcerrado, cooperativa que representa os extrativistas e pequenos agricultores. “Hoje temos consciência da importância de manter a floresta em pé, não só pela renda que ela nos fornece mas também pela conservação do meio ambiente. Se não for assim, em pouco tempo nossas crianças vão conhecer o cerrado apenas pelos livros”.
De olho na preservação
Osmar Alves de Sousa, conselheiro da cooperativa e companheiro de Gualdino na extração dos frutos do cerrado, explica que o que não falta é variedade de alimentos em meio aos troncos retorcidos. “Tem gente que acha que cerrado é só mato, mas o que mais temos são alimentos e riquezas por aqui”.
Entre os produtos colhidos estão a favela, a castanha de baru, o jatobá, o pequi e a sucupira. No total são 200 plantas manejadas, cultivadas e comercializadas pela cooperativa. “Mas a gente não tira aleatoriamente, temos um cálculo para não faltar alimento para passarinhos e outros animais”. De acordo com Osmar, os extrativistas são orientados a deixar 10% das frutas nas árvores. “E eles nos ajudam também porque muitas vezes uma paca come a fruta aqui e lá na frente defeca a semente que dá outro pé. A natureza é inteligente e a gente tem a obrigação de deixar ela se renovar”.
Investimento estrangeiro
Não são só instituições brasileiras que reconhecem a importância do cerrado. Organismos internacionais, como o Banco Mundial, também valorizam a diversidade do bioma. Tanto é que no ano passado o banco, em parceria com o Fundo de Investimento do Clima, anunciou projeto que contará, a partir deste ano, com investimento de R$ 14 milhões na preservação do bioma. Do valor total, 70% vão diretamente para comunidades indígenas e tradicionais que praticam a agricultura familiar, o extrativismo sustentável e o artesanato com foco na diminuição do desmatamento, da produção de carvão, da ocupação desordenada e das queimadas.
De acordo com Jailton Hycroh, que trabalha com processamento de cajus na empresa Fruta Sã, no Maranhão, 20% da matéria-prima processada na empresa em que trabalha vêm da agricultura indígena, porém, esse número poderia chegar a 50% se os indígenas tivessem condições de extrair e transportar essas frutas com segurança. E é esse tipo de ajuda que o Banco Mundial pretende dar às comunidades beneficiadas. “O cerrado, em algumas áreas, já está em estado de desertificação por causa das queimadas e o fogo também afeta as frutas, que dão alimento a tanta gente. Por isso é tão importante preservá-lo”, diz Hycroh.
Favela, a estrela do cerrado
De acordo com o Cedac, o projeto da fundação Banco do Brasil obteve no ano passado uma supersafra da favela com quase 300 toneladas, que corresponde ao rendimento de R$ 367,5 mil. O produto é vendido para empresas do Maranhão e de São Paulo, e as substâncias extraídas são exportadas para Estados Unidos e Bélgica. O Cedac fez um estudo sobre a estimativa do extrativismo da favela. O resultado foi que, só no ano passado, o mercado internacional movimentou um total de 12 bilhões de dólares.
Depoimento
“O agronegócio e o pequeno agricultor e extrativista estão em lados opostos. A gente sabe que tem que preservar para poder colher os benefícios que a natureza nos oferece. A gente faz o bem e tenta preservar o que a natureza deu pra gente e tirar o que tem de melhor sem prejudicar a natureza, para lá na frente a gente ter como retirar de novo. O agronegócio não; ele destrói e isso reflete até aqui na nossa terra. Temos cada vez menos água porque lá na nascente eles desmatam. Antes aqui era friozinho, agora está sempre quente, e as chuvas estão ficando escassas. Muita coisa mudou desde que os latifundiários chegaram. Os fazendeiros colocam fogo, acabam com as nascentes, desmatam a cabeceira do rio e plantam eucalipto, que suga nossa água. Aqui chovia direto. Agora a chuva diminuiu e a gente teme pelo que virá mais para a frente”.
Osmar Pereira, extrativista, agricultor familiar e morador de São Domingos (GO)
Fonte: Correio Braziliense
Foto: www.centraldocerrado.org.br
