Para especialistas, propostas apresentadas ainda são insuficientes
Passada a euforia sobre o pacto climático selado em Paris anteontem, ativistas e líderes mundiais mostram que já estão de olho no cumprimento das metas. O Papa Francisco instou ontem os países que assinaram o acordo histórico a se unirem para colocá-lo em prática urgentemente e a lembrarem dos pobres enquanto fazem isso.
– Para colocá-lo em prática, serão necessários o compromisso acordado e uma generosa dedicação por parte de todos – disse ele a dezenas de milhares de pessoas na Praça de São Pedro.
Francisco – que em maio lançou uma grande encíclica sobre a necessidade de proteger o meio ambiente e combater o aquecimento global – afirmou ter esperança de que seria “garantida às populações mais vulneráveis” uma atenção especial.
– Exorto toda a comunidade internacional a avançar com urgência ao longo do caminho que foi tomado, em um sinal de solidariedade – pontuou.
Enquanto o Pontífice discursava, as palavras de um importante pesquisador do clima seguiam ecoando pelo mundo. O ex-cientista da Nasa James Hansen, considerado mentor da conscientização sobre as alterações climáticas, disse ao jornal britânico “The Guardian” que os debates que culminaram no acordo final não passaram de “palavras inúteis”.
– É realmente uma fraude, uma farsa – enfatizou ele. – Não há nenhuma ação, apenas promessas. Enquanto os combustíveis fósseis forem vistos como as fontes mais baratas, eles continuarão a ser queimados.
Para Hansen, a meta de garantir que o aquecimento global fique bem abaixo de 2 graus Celsius, em direção à marca de 1,5 grau Celsius até 2100, é inútil, a menos que as emissões de gases do efeito estufa sejam drasticamente reduzidas. E, na opinião dele, somente a tributação pode forçar a redução das emissões com a rapidez necessária para evitar os piores estragos causados pelas mudanças climáticas.
– Mais da metade das cidades do mundo está em risco – disse ele, em tom de alerta. – Se você conversar com cientistas especializados em geleiras, eles vão te dizer que estão muito preocupados, pois a elevação do nível do mar é muito mais drástica do que as camadas de gelo estão nos mostrando.
De acordo com Hansen, o custo econômico da continuidade dessa abordagem usual em relação às emissões é incalculável, podendo colocar em colapso a governança global.
– Estamos falando de centenas de milhões de refugiados do clima, em lugares como o Paquistão e a China. Não podemos simplesmente deixar que isso aconteça. A civilização foi criada e desenvolvida com um litoral constante e estável – ilustrou.
COMPROMISSOS DEVEM SER REVISTOS A Climate Action Tracker (CAT), que reúne quatro institutos de pesquisa, classificou como insuficientes as promessas feitas pela maioria dos países. Em função disso, a entidade afirmou que “quase todos” devem rever seus compromissos em 2025 ou 2030.
Em 2018, dois anos antes da entrada do acordo em vigor, haverá uma avaliação das metas apresentadas pelos países. Deverá ser feito, por exemplo, um balanço do progresso na transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis. Apesar de não ser um processo punitivo, há uma expectativa de que isso sirva de base para que novos compromissos de redução de emissões sejam assumidos, em substituição àqueles previstos para 2020.
– Este será um momento político importante, no qual os governos serão encorajados a aumentar seus esforços – disse Mohamed Adow, da ONG Christian Aid, à agência de notícias AFP.
Fonte: O Globo
Foto: Web
